Por Victório Dell Pyrro
O confronto entre Lula (PT)e Flávio Bolsonaro (PL), na Band, na noite de domingo (18), entrou na história recente da televisão eleitoral como um dos piores debates já produzidos no país. Não só pela existência de embate desmedido com falta de propostas consistentes, mas pela ausência de controle, pelo espetáculo de baixaria e pela transformação do estúdio em arena de torcidas, provocações e desavenças entre aliados.
No primeiro confronto direto nesta eleição, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro protagonizaram, no debate de ontem, uma disputa agressiva, marcada por trocas de acusações, ironias, pobreza de propostas e promessas que parecem pouco factíveis. Naquilo que interessa ao eleitor, o presidente durante a maior parte do tempo defendeu seus governos e não apresentou planos para um eventual quarto mandato. O senador, por sua vez, sempre enfatizando que representa a novidade, prometeu mudanças e medidas ousadas, mas sem dar indicação de como fará para implementá-las.
Uma plateia fora de controle
A decisão da Band de levar ao estúdio uma plateia formada por apoiadores dos dois candidatos sem seguranças suficientes para controlar os ânimos acabou em gritos, vaias, aplausos, assobios e interrupções constantes durante as falas de Lula e Flávio, tão esperadas pela população.
Na reta final, a confusão atingiu o ponto mais baixo. As considerações finais dos dois presidenciáveis foram interrompidas por mais de dois minutos por gritaria e jingles eleitorais, com Adriana Araújo e Eduardo Oinegue repetindo pedidos de silêncio sem conseguir restabelecer a ordem.
O que se viu?
Flávio Bolsonaro começou bem na primeira fala, mas depois adotou uma tática deliberada de provocação visual. Durante respostas de Lula, circulava pelo estúdio e aparecia atrás do presidente, gesticulando e reagindo às falas do adversário. A campanha petista reclamou, e a mediação precisou pedir que os candidatos não atrapalhassem as respostas um do outro.
No conteúdo, o debate foi dominado por xingamentos, ironias e acusações pessoais. Lula chamou Flávio de “malandro carioca” e “mentiroso contumaz”; Flávio respondeu com ataques e provocações. O resultado foi um programa em que a troca de farpas ocupou o espaço que deveria pertencer a propostas, números e explicações.
Sidônio no centro do caos
A tensão não ficou restrita aos candidatos. Sidônio Palmeira, ministro da Secom e articulador da comunicação da campanha de Lula, reclamou com Flávio já no primeiro intervalo pela movimentação atrás do presidente e cobrou providências dos diretores da Band.
No intervalo seguinte, a discussão virou confronto aberto entre Sidônio e Fábio Portela, responsável pela comunicação de Flávio. Os dois discutiram no centro do palco, e Sidônio chegou a dizer: “Não encosta em mim, que eu não quero falar com você”. A Band precisou intervir antes da retomada do programa.
A plateia acompanhou o clima. O deputado Nikolas Ferreira gritou para Sidônio “calar a boca” e fez gesto de silêncio em direção a Janja; a primeira-dama reagiu aos ataques de Flávio dizendo “mentira, mentira”, depois alegando que estava espirrando.
A falha é da produção
Um debate presidencial é um serviço público de informação, não um reality show. Ele exige regras rígidas, isolamento da plateia quando necessário, advertências imediatas e, sobretudo, disposição da emissora para interromper quem descumprir o combinado.
A Band permitiu que a disputa política contaminasse todos os espaços do programa: palco, plateia, bastidores e até o intervalo. O resultado foi um debate em que a mediação perdeu o comando, os candidatos competiram por ruído e o eleitor recebeu mais espetáculo grotesco do que esclarecimento.
Considerações finais
Lula foi o primeiro a fazer as considerações finais. No início, houve interrupções, e os mediadores pediram a Flávio e à plateia que permitissem que o presidente falasse.
Lula agradeceu aos apoiadores e defendeu a continuidade de seu governo. Disse que o Brasil está preparado para crescer mais e citou como prioridades a recuperação da indústria. Também criticou privatizações e defendeu estatais “fortes e produtivas”.
Flávio afirmou, nas considerações finais, que não fará promessas que não puder cumprir e voltou a defender a criação do Ministério da Prosperidade e suas propostas para a segurança pública. Disse que pretende colocar o cidadão no “centro do governo” e pediu votos para o segundo turno.
Após as duas falas, os mediadores encerraram o primeiro debate do segundo turno.
O que ficou para o eleitor
Faltou debate. Sobrou baixaria. O país viu acusações, provocações, gritaria e uma confusão coletiva, mas pouca discussão consistente sobre segurança, economia, emprego, saúde ou o futuro do governo e do Brasil.




