Bolsa tem queda histórica após reeleição de Lula e dólar dispara

O mercado financeiro reagiu com forte aversão a risco nesta segunda-feira (26), primeiro pregão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eleito ontem com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). Investidores venderam ações, compraram dólares e elevaram as taxas de juros futuros, diante de preocupações com o rumo da política fiscal no quarto mandato do petista.

Dólar passa de R$ 5,60

O dólar comercial abriu em alta de 8,65%, a R$ 5,4248, e atingiu o limite de oscilação da B3 logo na abertura. Depois de uma primeira suspensão dos negócios, a moeda americana chegou a R$ 5,60, avanço de 12,2% sobre o fechamento de sexta-feira (23), quando encerrou a R$ 4,9930.

Pouco antes das 11h, após nova interrupção e retomada das operações, o dólar era negociado a R$ 5,53, com alta de 10,78%. No mercado offshore, fora da B3, a divisa chegou a ser cotada a R$ 5,6150.

MomentoCotação do dólarVariação
Fechamento de sexta (23)R$ 4,9930-0,90%
Abertura desta segunda (26)R$ 5,4248+8,65%
Máxima da manhãR$ 5,60+12,2%
Por volta das 11hR$ 5,53+10,78%

Bolsa aciona circuit breaker

O Ibovespa entrou em queda livre logo no início do pregão. A B3 acionou o circuit breaker por volta das 10h05, após o índice recuar mais de 10%, suspendendo por 30 minutos as negociações de ações, ETFs, opções e parte da renda fixa privada. Foi a primeira paralisação desse tipo desde março de 2020, no início da pandemia.

Após a reabertura, a queda se aprofundou. O Ibovespa chegou à mínima de 169.516,43 pontos, recuo de 17,34%, e operava por volta das 11h a 171.931,23 pontos, queda de 16,15%.

Entre as maiores perdas estavam ações cíclicas, sensíveis ao crescimento econômico e aos juros. Papéis da B3 chegaram a cair quase 50%, enquanto C&A, Cogna, Cyrela, Lojas Renner e Magazine Luiza registravam desvalorizações entre 30% e 50%. Petrobras recuava 8,64%.

Juros futuros disparam

A curva de juros futuros subiu em todos os prazos. O contrato de DI para janeiro de 2027 chegou a 13,97%, enquanto a taxa para janeiro de 2031 saltou de 12,57% para 14,46%. O movimento reflete a leitura de que o mercado passou a exigir maior remuneração para financiar o Brasil, ante a incerteza fiscal.

O Tesouro Nacional cancelou o leilão de títulos públicos previsto para esta segunda-feira, diante da volatilidade nos mercados.

Por que houve a liquidação

A reação decorre da reversão de uma aposta construída após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro venceu e o mercado passou a precificar um governo com agenda fiscal mais restritiva. Naquele período, o Ibovespa subiu 7,70% e o dólar caiu 4,11%, para R$ 5,001.

Com a virada no segundo turno, analistas avaliam que o mercado está devolvendo parte dessa valorização. A preocupação central é o espaço fiscal do próximo governo, a trajetória da dívida pública e a capacidade de aprovar medidas de contenção de gastos no Congresso.

O que pode mudar o quadro

Apesar da intensidade da queda, parte dos estrategistas considera que o movimento reflete sobretudo um ajuste de posicionamento, e não necessariamente uma nova realidade estrutural da economia brasileira.

Os principais fatores observados pelo mercado nas próximas semanas são:

  • A escolha do ministro da Fazenda e da equipe econômica.
  • Sinais rápidos de compromisso com o controle de despesas.
  • Um plano de consolidação fiscal para os próximos quatro anos.
  • A postura do Banco Central diante da depreciação do real e da alta dos juros futuros.

Para o consumidor, o dólar mais alto tende a encarecer importados, combustíveis, matérias-primas e viagens ao exterior. A alta dos juros futuros pode elevar o custo de financiamento do governo e das empresas e, ao longo do tempo, pressionar as taxas de crédito oferecidas a famílias e negócios.