O jornalista Rodrigo Rangel, diretor de redação do PlatôBR, deixou o portal nesta segunda-feira (26), após a divulgação de mensagens em que Flávio Carneiro, dono do site, teria usado o nome dele em conversas com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Rangel afirmou que desconhecia a atuação revelada nos diálogos e que nenhuma interferência foi feita sobre o conteúdo produzido por ele ou por sua equipe.
A saída ocorre em meio ao escândalo das mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro, que indicam um padrão de influência do ex-banqueiro sobre veículos de comunicação, incluindo o próprio PlatôBR, o Brazil Journal, a IstoÉ, o DCM e a CartaCapital.
O que motivou a saída
Em nota, Rangel disse que as mensagens revelaram “uma face da atuação” de Carneiro que ele desconhecia e o “uso indevido” de seu nome. Segundo o jornalista, os diálogos estavam “em absoluto desacordo” com suas crenças, seus valores sobre o jornalismo e os procedimentos que considera corretos na profissão.
“Nada do que está nas mensagens trocadas por ele com terceiros se refletiu em ações concretas ou em conteúdos publicados por mim ou por minha equipe”, declarou Rangel. Ele acrescentou que nunca foi solicitado a atender pedidos do dono do Banco Master e que “jamais admitiria fazer” isso.
O diretor também destacou que é possível verificar, por meio de busca no próprio site, que os assuntos mencionados nas conversas não geraram conteúdos publicados por sua equipe. Segundo ele, nunca manteve relacionamento com os terceiros citados nas mensagens.
O que as mensagens revelam
As conversas divulgadas mostram que Carneiro, sócio do PlatôBR por meio da empresa Foone, teria combinado com Vorcaro o envio de minutas de textos antes da publicação. Em março de 2025, dois dias após o anúncio da compra do Banco Master pelo BRB, Carneiro escreveu ao ex-banqueiro: “Vou te mandando as minutas e você analisa e publicamos”.
As mensagens também indicam pedidos de Vorcaro para que o portal evitasse determinados políticos e atacasse outros nomes. Em agosto de 2025, o ex-banqueiro teria dito a Carneiro: “Não deixa Platô falar de Ciro e Rueda”, em referência ao presidente do PP, Ciro Nogueira, e ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda. Vorcaro também teria pedido reportagens negativas contra Ricardo Cappelli, então pré-candidato ao governo do Distrito Federal.
Em outro episódio, relacionado a um vídeo publicado pelo PlatôBR que mostrava um abraço entre Ciro Nogueira e o empresário Ricardo Magro, da Refit, Vorcaro teria cobrado: “Ou resolve isso agora em todos. Ou tá cancelado todo o projeto. Isso passou dos limites”. Carneiro teria respondido que o vídeo estava apenas na página pessoal do então colunista e que não era possível “escancarar” a interferência.
Defesa anterior de Rangel
Antes de anunciar a saída, Rangel havia publicado, na terça-feira (21), um texto no próprio PlatôBR intitulado “Nossa redação não negocia — e não se submete”. Nele, o jornalista garantiu que, nos assuntos tratados e editados por ele, não houve interferência de Vorcaro nem do dono do portal.
Rangel afirmou que a relação de amizade entre Carneiro e Vorcaro era sabida, mas que o proprietário do site sempre negou que o ex-banqueiro tivesse participação no negócio. O diretor disse que a liberdade editorial foi condição para aceitar o projeto e que os critérios do time sob sua coordenação eram os da redação.
Ele também negou ter recebido pedidos para enviar perguntas de entrevistas antecipadamente, orientações para não abordar determinadas pessoas ou ordens para alterar conteúdos em favor de interesses do dono do site. “Se sigo aqui é porque entendo que temos conseguido — eu e o meu time — fazer um trabalho que considero adequado e honesto”, escreveu na ocasião.
Afastamento no Brazil Journal
O caso se soma ao afastamento de Flávio Carneiro das funções executivas e da sociedade no Brazil Journal, anunciado na quinta-feira (22). O portal justificou a decisão afirmando que, nas interações com Vorcaro, o nome do veículo foi usado “indevidamente e de forma que coloca em risco a credibilidade” do jornal.
Carneiro tinha participação societária no Brazil Journal, no PlatôBR e na IstoÉ, com fundos controlados indiretamente por Vorcaro. As sociedades teriam durado de 2024 ao início de 2025. Carneiro também atuava como conselheiro de mídia e assessor de imagem do ex-banqueiro.
As mensagens reveladas indicam que Vorcaro revisou rascunhos, sugeriu cortes e acréscimos, pediu a retirada de links de conteúdos já publicados e combinou datas de veiculação de reportagens favoráveis a ele no Brazil Journal.
O contexto do escândalo
A repercussão faz parte de uma série de revelações sobre a relação de Vorcaro com veículos e executivos de mídia. As mensagens, extraídas pela Polícia Federal, apontam que o ex-banqueiro buscava influenciar diretamente coberturas jornalísticas por meio de patrocínios, investimentos e contatos próximos com dirigentes de empresas de comunicação.
No Grupo Globo, o diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar, foi demitido na quinta-feira (15) após a divulgação de conversas com Vorcaro. A empresa afirmou que as mensagens revelaram uma relação inadequada entre o executivo e um anunciante e reafirmou seu compromisso com ética, transparência e independência editorial.
O que está em disputa
O episódio coloca em xeque a fronteira entre relações comerciais legítimas e interferência editorial. A existência de patrocínio, publicidade ou investimento em um veículo não é, por si só, ilegal; o problema surge quando há troca implícita ou explícita de recursos por controle sobre pautas, textos, cortes, datas de publicação ou remoção de conteúdos.
No caso do PlatôBR, a saída de Rangel, nesta segunda-feira (26), reforça a divisão entre a atuação atribuída ao dono do portal nas mensagens e a versão do diretor de redação, que sustenta não ter permitido ou sofrido qualquer ingerência. A apuração definitiva, porém, dependerá da análise completa das conversas, dos registros editoriais e das eventuais explicações de Carneiro e Vorcaro.





