Lulinha e Flávio Bolsonaro têm tratamento diferente: Apenas passaporte de opositor foi apreendido

As investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o senador Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no último domingo (25) por Lula nas eleições presidenciais, avançaram nos últimos meses e colocaram os filhos dos dois principais líderes políticos do país no centro de apurações sobre tráfico de influência, lavagem de dinheiro e relações suspeitas com empresários.

O tratamento processual dado pela Polícia Federal e pelo STF aos dois apresenta diferenças relevantes — sobretudo quanto a medidas cautelares, bloqueios de bens e restrições de liberdade.

Até agora, Lulinha é alvo de três inquéritos no STF, com quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático, mas não enfrenta restrição de saída do país nem cancelamento de passaportes. Flávio Bolsonaro, por sua vez, foi intimado a entregar os passaportes, proibido de deixar o Brasil e teve o amigo e suposto parceiro, o advogado Willer Tomaz, alvo de bloqueio de até R$ 6 bilhões.

O caminho do dinheiro de Lulinha

A investigação sobre Lulinha nasceu dentro da Operação Sem Desconto, deflagrada pela PF em parceria com a Controladoria-Geral da União para apurar fraudes em descontos de aposentadorias e pensões do INSS. O esquema, segundo a PF, teria desviado cerca de R$ 6,3 bilhões de beneficiários entre 2019 e 2024.

O elo central é o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado pela PF como um dos operadores do esquema. A PF investiga se Lulinha teria atuado como sócio oculto de Antunes e se recebeu pagamentos por meio da empresária Roberta Luchsinger, amiga do filho do presidente e apontada como intermediária entre os dois.

Uma testemunha ouvida pela PF afirmou que o Careca do INSS teria feito um pagamento de 25 milhões — em moeda não identificada — a Lulinha e pago uma “mesada” de cerca de R$ 300 mil. A PF também apura que Luchsinger recebeu repasses de Antunes que somam R$ 1,5 milhão, supostamente destinados a viabilizar contratos no governo federal.

Em uma das transferências, segundo a PF, Antunes teria informado a um interlocutor que o dinheiro era destinado ao “filho do rapaz”, expressão que os investigadores entendem como possível referência a Lulinha.

Luschinger e os Alpes suíços

Roberta Luchsinger tornou-se peça central da investigação. Documentos, fotografias e vídeos apreendidos em seu celular registram viagens de Lulinha a destinos de luxo nos Alpes suíços, supostamente custeadas pela empresária.

Um dos episódios investigados ocorreu no início de 2025, em Crans-Montana, na Suíça, onde a hospedagem teria diárias superiores a 22 mil francos suíços — cerca de R$ 133 mil. A PF apura um orçamento de viagem de R$ 1,86 milhão, com passagens pela Suécia, Finlândia e Suíça, além de chef particular, mordomo, hotel em Gstaad e seis dias de esqui.

A investigação busca esclarecer a origem dos recursos usados nas viagens, quem efetivamente pagou as despesas e se houve contrapartida relacionada aos gastos. A PF também analisa se Lulinha e Luchsinger atuaram em conjunto para agendar encontros do Careca do INSS com autoridades do governo federal.

Os três inquéritos contra Lulinha

O STF autorizou a abertura de três inquéritos contra Lulinha a pedido da PF. O primeiro, sob relatoria do ministro André Mendonça, apura se ele atuou para favorecer o Careca do INSS em negociações envolvendo cannabis medicinal e o Ministério da Saúde.

O segundo inquérito, também sob relatoria de Mendonça, investiga se Lulinha teria usado influência para beneficiar empresários em contratos da Dataprev, empresa pública vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação.

O terceiro inquérito, sob relatoria do ministro Flávio Dino, apura possível vazamento ilegal de dados sigilosos e tráfico de influência.

Apesar das suspeitas, Lulinha não foi indiciado até agora. A Procuradoria-Geral da República afirmou ao STF que a PF não identificou a conclusão de nenhum negócio entre o Careca do INSS e o poder público que pudesse sugerir atendimento efetivo às pretensões do grupo. A PGR defendeu ainda a remessa do caso à Justiça Federal de primeira instância, por ausência de indícios mínimos de participação de autoridade que justificasse a competência do STF.

O caso de Flávio e Willer Tomaz

Flávio Bolsonaro é alvo de dois inquéritos no STF. O mais recente, sob relatoria de Alexandre de Moraes, apura suposta lavagem de dinheiro em parceria com o advogado Willer Tomaz, amigo próximo do senador e alvo de outra investigação por suposto envolvimento no esquema de fraudes do INSS.

A apuração teve origem em um procedimento da PF no Rio Grande do Sul sobre evasão de divisas e uso de plataformas de apostas para lavagem de dinheiro. O caso subiu ao STF após a identificação de referências a Flávio, que, como senador, possui foro privilegiado.

Segundo a PF, e-mails encontrados na nuvem de Willer Tomaz mostram que Flávio foi cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária do Santander em nome da Alcazar Holdings, empresa do advogado com sede em Portugal. O perfil conferia ao senador elevado nível de acesso e gerenciamento da conta, situação que teria perdurado até maio de 2025.

A PF também identificou registros de festas, encontros e reuniões entre Flávio e Tomaz, além de pagamentos de viagens ao parlamentar. A investigação aponta ainda vínculos entre Tomaz, o empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, e operações no setor de apostas.

As apostas e o bloqueio de R$ 6 bilhões

Willer Tomaz foi apontado como o maior apostador do Brasil em 2025. Segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas, ele apostou R$ 5 bilhões no ano. Entre janeiro de 2025 e julho de 2026, o advogado teria movimentado R$ 6,6 bilhões em apostas, com 53.310 apostas registradas e prejuízo líquido de R$ 188,5 milhões.

A PF suspeita que parte das operações seja simulada, usada para ocultar a origem de recursos. A defesa de Tomaz nega lavagem de dinheiro e afirma que todas as movimentações ocorreram em conta própria, de forma transparente e rastreável.

Com base nesses indícios, Moraes determinou na sexta-feira (23) o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores vinculados a Tomaz, além da quebra de sigilos bancário, fiscal e cambial do advogado e de quatro empresas ligadas a ele: Alcazar Brasil, Alcazar Holdings Unipessoal, Alcazar Global Holdings e Catedral Holdings.

As medidas contra Flávio

Na noite de domingo (25), Moraes determinou o cancelamento de todos os passaportes brasileiros de Flávio, inclusive o diplomático, e a entrega, em até 24 horas, de eventuais passaportes de outras nacionalidades.

O ministro também proibiu o senador de deixar o território nacional, determinou a inclusão de alerta migratório no sistema de controle de entradas e saídas do país e proibiu contato entre Flávio e Willer Tomaz.

A PF intimou o senador na manhã de segunda-feira (26), quando ele deixava a casa do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Flávio afirmou que cumprirá a ordem, mas negou qualquer intenção de deixar o Brasil.

As diferenças de tratamento

A comparação entre os dois casos revela diferenças importantes no estágio e na intensidade das medidas adotadas.

Lulinha teve sigilos quebrados e é investigado em três inquéritos, mas não enfrenta restrição de saída do país, cancelamento de passaportes ou bloqueio de bens. A PGR, inclusive, avaliou que não havia indícios mínimos de participação de autoridade que justificasse a competência do STF e pediu a remessa do caso à primeira instância.

Flávio, por outro lado, teve passaportes cancelados, foi proibido de sair do Brasil e teve o amigo e suposto parceiro comercial alvo de bloqueio bilionário. A PF aponta indícios de acesso privilegiado a conta bancária, pagamentos de viagens e movimentações financeiras suspeitas ligadas a apostas.

O que os dois casos têm em comum

Apesar das diferenças, os dois casos compartilham elementos semelhantes: filhos de presidentes investigados por suposta intermediação de interesses privados junto ao poder público, uso de intermediários empresariais, movimentações financeiras suspeitas e suspeitas de lavagem ou ocultação de recursos.

Nos dois casos, porém, não há condenação. As investigações seguem em curso, e as suspeitas ainda não foram comprovadas judicialmente.

A diferença de tratamento, portanto, não pode ser afirmada como fato consumado, mas como constatação processual: enquanto Lulinha enfrenta apurações sem medidas restritivas de liberdade, Flávio Bolsonaro já foi alvo de medidas cautelares mais duras, incluindo a proibição de sair do país e o cancelamento de passaportes.

A evolução dos dois inquéritos nos próximos meses deverá esclarecer se houve, de fato, tratamento diferenciado — ou se as diferenças refletem apenas o estágio distinto das provas e a natureza dos indícios em cada caso.