O senador e ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta após desembarcar em Miami, nos Estados Unidos, acompanhado da esposa e das duas filhas. No texto, ele nega ter fugido do Brasil, acusa a Justiça e as instituições eleitorais de perseguição e fraude, e afirma que passará a liderar a oposição a partir do exterior.
A publicação ocorreu horas depois de o senador chegar à Flórida, após deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina, apesar de decisão judicial que havia determinado a entrega do passaporte e proibido sua saída do território nacional.
Dirigida “ao povo brasileiro e à comunidade internacional”, a carta foi divulgada inicialmente por aliados do senador, como o comentarista Paulo Figueiredo. Na primeira versão, Flávio Bolsonaro se apresentou como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Minutos depois, ele republicou o texto substituindo a expressão por “líder do Brasil”.
No documento, o senador reafirma a tese de fraude eleitoral no segundo turno, disputado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele questiona a prorrogação do horário de votação e alega abuso de poder político e econômico, além de uso da máquina pública em favor da chapa vencedora.
“Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil”, escreveu Flávio, ao classificar o país como um “regime de exceção” e afirmar que deixou o território nacional para proteger a família e preservar sua atuação política.
A carta critica diretamente o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. Flávio acusa o STF de “instrumentalização política da Justiça” e afirma que o país vive um “caos jurídico, de corrupção e de perseguição política”.
Ele também menciona uma suposta sequência de medidas contra si — apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar e condenação política — e diz que não pretende submeter a família a esse cenário.
A Polícia Federal, porém, esclareceu nesta quarta que o descumprimento das ordens judiciais não faz do senador um foragido. Segundo a corporação, não há mandado de prisão contra ele, nem vigilância permanente ou outras medidas cautelares em vigor.
Liderança a partir do exterior
Flávio Bolsonaro anuncia que pretende comandar a oposição brasileira a partir dos Estados Unidos. “Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, afirma no texto, dirigindo-se a senadores, deputados e governadores aliados.
Ele promete pronunciamentos regulares e diz que divulgará, nos próximos dias, uma estratégia para mobilizar apoiadores “por todos os meios pacíficos e legítimos”. O senador também cita o colega Rogério Marinho (PL-RN) como interlocutor político.
Na carta, Flávio agradece ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao presidente da Argentina, Javier Milei, pelo acolhimento. Ele compara sua situação à de figuras históricas que atuaram no exílio, como Rui Barbosa e Charles de Gaulle.
Contexto e reações
A divulgação ocorre três dias após o segundo turno das eleições presidenciais, vencido por Lula. Segundo o resultado oficial do TSE, o petista obteve 64.256.232 votos válidos (51,79%), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio Bolsonaro.
A mudança na autodesignação do senador — de “verdadeiro presidente eleito” para “líder do Brasil” — chamou atenção porque ocorreu poucos minutos após a primeira publicação. Ainda assim, o texto manteve integralmente as acusações de fraude eleitoral e de perseguição judicial.
Flávio havia marcado uma coletiva de imprensa para a manhã desta quinta-feira (29), mas desistiu do evento e optou por divulgar a declaração por escrito.
O que vem a seguir
A permanência do senador nos Estados Unidos e o anúncio de uma articulação política externa devem intensificar o debate sobre os limites institucionais, a responsabilidade de autoridades eleitas que descumprem decisões judiciais e a reação do governo e do Congresso. O mandato de Flávio Bolsonaro no Senado segue até o fim de janeiro.
Integra da carta de Flávio Bolsonaro:
Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.
Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema.
Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.
A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.
Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.
Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do impeachment. Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.
Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.
Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.
Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.
Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação.
Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim. Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.
À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal.
Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.
E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista.
Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar.
Que Deus abençoe o Brasil.





