Em depoimento prestado à Polícia Federal no dia 15 de outubro de 2026, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, afirmou que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), pediu que ele estruturasse uma operação de venda do BRB ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Segundo Paulo Henrique, o pedido foi feito durante um jantar na casa de Vorcaro, em 24 de setembro de 2024. Ele disse ter sido convocado pelo gabinete do governador e tentou evitar a reunião porque estava viajando na Bahia.
“No dia 24 de setembro [de 2024], eu recebo uma mensagem no meu celular que me convoca pra uma reunião à noite na casa do Daniel Vorcaro, do gabinete do governador Ibaneis Rocha. Eu até falo ‘puxa, eu tô viajando, tô na Bahia’, tenho que voltar correndo. Eu tento fugir, e não dava pra fugir do jantar”, afirmou Paulo Henrique.
De acordo com o ex-presidente, durante o encontro Ibaneis disse:
“Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master.”
Paulo Henrique afirmou que ficou surpreso com o pedido porque, até então, a venda do BRB porque sempre havia defendido que o banco público não fosse vendido.
“Fiquei surpreso por causa da venda do BRB, porque a gente tinha sempre defendido não fazer de jeito nenhum. E puto porque eu falei: ‘poxa, eu estou fazendo cessão, um dano é alto. Como é que ele marca uma reunião como governador e não me autoriza?’”, declarou.
Mudança na negociação
Em determinado momento, a operação foi invertida: a tratativa passou a ser a compra do Banco Master pelo BRB. O negócio chegou a ser anunciado e obteve aval da Câmara Legislativa do DF, mas foi barrado pelo Banco Central dias antes da liquidação do Master e da operação “Compliance Zero”.
Em 28 de outubro de 2026, a Polícia Federal indiciou Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas no inquérito principal do caso Master.
Relatórios recentes da PF indicam que a articulação começou em 2024 e que, em janeiro de 2025, Ibaneis participou de reunião com Paulo Henrique e Vorcaro em Zurique, na Suíça. O g1 procurou a defesa de Ibaneis, mas não obteve retorno até a atualização da reportagem.
Reunião em Zurique
A PF baseou o relatório em mensagens extraídas dos celulares de Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro, ambos atualmente presos. A investigação aponta a seguinte sequência:
- 20 de janeiro de 2025: Paulo Henrique informou a Vorcaro que Ibaneis havia pedido para marcar uma reunião.
- 23 de janeiro de 2025: Vorcaro, Ibaneis, Paulo Henrique e um quarto interlocutor, identificado apenas como “Leonardo”, se reuniram em Zurique, na Suíça, para negociar a compra do Master pelo BRB.
- 26 de janeiro de 2025: Vorcaro perguntou a Paulo Henrique sobre a negociação, dizendo que a pergunta vinha do jornalista Lauro Jardim, do O Globo. Segundo a PF, Paulo Henrique demonstrou preocupação com vazamento e afirmou que não ampliaram “o escopo das pessoas envolvidas no deal [na negociação]”.
Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, segundo a PF, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master. Em um ano, esse montante teria alcançado R$ 16,7 bilhões, conforme relatórios anteriores.
Apontamentos da PF sobre Ibaneis
Para a Polícia Federal, Ibaneis não teria se limitado às prerrogativas institucionais do cargo e teria atuado diretamente em quatro frentes:
- Articulação com agentes privados.
- Validação de decisões operacionais críticas.
- Definição da estratégia de expansão do BRB.
- Autorização dos montantes do aumento de capital.
A PF afirma que decisões estratégicas eram submetidas ao governador antes mesmo da deliberação pelos órgãos formais de governança, o que indicaria centralização decisória e interferência política direta na condução do banco público.
“Tal atuação é indicativa de captura institucional, na medida em que a estrutura de decisão do banco foi alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público”, concluiu a PF.
A investigação também conclui que o Banco Master passou a integrar indiretamente a estrutura acionária do BRB por meio de fundos de investimento — Borneo, Verbier e Delta —, supostamente estruturados para ocultar o beneficiário final e evitar a caracterização formal de controle ou participação qualificada.
Defesa de Ibaneis Rocha
A defesa de Ibaneis afirmou que recebeu o relatório “com tranquilidade” e reiterou que ele não pressionou nem teve ingerência nas operações do BRB.
“Ibaneis Rocha não pressionou e tampouco teve qualquer ingerência nas operações realizadas pelo BRB. Como se constata da leitura do documento, o ex-presidente do banco detinha total autonomia para condução das negociações em nome da instituição financeira. O contato com Ibaneis Rocha se deu em contexto natural, institucional e republicano, considerando os cargos ocupados por ambos.”
A defesa acrescentou que Ibaneis não aparece como interlocutor direto em mensagens com Vorcaro e que seu nome é mencionado pela PF apenas quatro vezes, o que, segundo os advogados, não permite imputar responsabilidade ao ex-governador.
A defesa é formada por Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay), Roberta Castro Queiroz, Marcelo Turbay Freiria, Liliane de Carvalho Gabriel, Álvaro Chaves e Ananda França de Almeida, do escritório Almeida Castro, Castro e Turbay Advogados.
Defesa de Paulo Henrique Costa
A defesa de Paulo Henrique afirmou que, como presidente do BRB, ele não tinha autonomia para decidir sozinho operações dessa magnitude.
“Paulo Henrique foi Presidente do BRB, não seu dono. Decisões dessa envergadura precisavam de aprovação do Conselho de Administração; e o acionista majoritário era o Governo do DF. Ainda que Paulo tivesse quisto fazer um negócio ilícito às escondidas com Vorcaro, teria sido parado no Conselho de Administração (de que faz parte o Governo do DF) e pelo sistema de governança interna. Por fim, Paulo segue confiante de que poderá apresentar a verdade dos fatos.”





