Por Victório Dell Pyrro
O anúncio da Gerdau, nesta terça-feira (3), de encerramento da produção de aço em Divinópolis, em Minas Gerais, revela o custo humano e econômico de uma política industrial que não conseguiu proteger setores estratégicos da concorrência externa e da perda de competitividade. A decisão atinge diretamente cerca de mil trabalhadores e pode afetar mais de 2 mil empresas no entorno da fábrica.
A empresa atribuiu o fechamento à perda de competitividade da operação, à dificuldade de obter minério de ferro a custos competitivos, ao avanço das importações de aço no Brasil e às condições desfavoráveis do mercado internacional para exportações. Para uma cidade que depende da siderúrgica há mais de três décadas, a explicação não ameniza o impacto: ela confirma que o setor produtivo foi deixado exposto a um cenário que o governo federal não conseguiu conter.
Mil empregos e uma cidade em risco
A unidade responde por cerca de 7,4% do emprego industrial de Divinópolis e pode representar até 15% dos repasses de ICMS recebidos pelo município. São números que mostram que o fechamento não é apenas uma decisão corporativa: é uma perda estrutural para a arrecadação, os serviços públicos e a economia local.
O sindicato informou que 280 trabalhadores já foram demitidos após o anúncio. A prefeita Janete Aparecida afirmou que a prioridade do município será apoiar as pessoas atingidas, acompanhar a cadeia produtiva e defender a economia da cidade.
O efeito dominó sobre microempresas
Nos bairros Interlagos e Porto Velho, no entorno da fábrica, existem mais de 2 mil empresas — e 93% delas são microempresas. Restaurantes, transportadoras, oficinas, prestadores de serviços e fornecedores dependem, direta ou indiretamente, da movimentação gerada pela usina.
Com a interrupção da produção, a queda da demanda já começa a aparecer. Comerciantes relatam prejuízos imediatos e temem demissões adicionais, fechamento de negócios e endividamento das famílias que dependem do comércio local. O caso mostra como a perda de um grande empregador pode transformar rapidamente uma crise setorial em crise social.
Onde falhou o governo federal
A Gerdau apontou dois fatores centrais: custo elevado do minério de ferro e pressão das importações de aço. Ambos exigiam resposta coordenada do governo federal — seja por meio de política de insumos, defesa comercial mais eficaz, incentivos à competitividade ou planejamento de transição para regiões industriais vulneráveis.
A ausência dessa resposta deixa municípios como Divinópolis carregando sozinhos as consequências. A Prefeitura anunciou que lançará, ainda nesta semana, um programa para reduzir os impactos sobre trabalhadores e negócios, mas uma ação municipal tem alcance limitado diante de um problema de competitividade, comércio exterior e política industrial de escala nacional.
Empresas fechadas e famílias em risco
O fechamento da unidade cria o risco de um efeito dominó: menos produção, menos fornecedores contratados, menos transporte, menos consumo e, por fim, mais microempresas fechando as portas. Para as famílias dos trabalhadores demitidos e dos pequenos empresários da região, a preocupação imediata é a perda de renda e a dificuldade de manter compromissos financeiros.
O caso de Divinópolis deve servir de alerta. Quando uma indústria estratégica perde competitividade e o Estado não oferece proteção adequada, o prejuízo não fica restrito ao balanço da empresa: ele se espalha por bairros, comércios, transportadoras e milhares de famílias que dependiam daquele ciclo econômico.
O que falta fazer
O governo federal precisa apresentar uma resposta que vá além do discurso. Isso inclui avaliar medidas de defesa comercial contra importações consideradas desleais, reduzir custos logísticos e tributários, garantir acesso competitivo a insumos essenciais e criar um plano emergencial de requalificação e apoio às empresas atingidas em Divinópolis.
Sem isso, o encerramento da Gerdau pode se tornar mais um exemplo de como a desindustrialização avança em silêncio — até o momento em que deixa para trás empregos perdidos, negócios fechados e famílias sem perspectiva.





