Por Victório Dell Pyrro
Se o leitor acha que já viu de tudo quando o assunto é escândalo envolvendo poder, dinheiro e governo, convém sentar. O que a CPMI do INSS começa a escancarar não é apenas mais um caso de desvios burocráticos ou falhas administrativas. É algo mais indecoroso: a suspeita de que o bolso do aposentado virou extensão do caixa de grupos bilionários com trânsito livre no Planalto.
No centro da engrenagem do mal aparece o grupo J&F, dos irmãos Batista, controladores da Friboi e do PicPay.
Segundo dados revelados na CPMI do INSS, empresas ligadas ao conglomerado teriam despejado R$ 55,7 milhões em companhias associadas ao lobista Danilo Trento, apontado como peça central no esquema de descontos associativos que drenou bilhões de reais de beneficiários do INSS.
Não se trata de troco de padaria. É cifra graúda circulando em torno de personagens que orbitam como moscas varejeiras contratos públicos e decisões administrativas.
Enquanto isso, o PicPay surfava no “Meu INSS Vale+”, programa lançado em dezembro de 2024 para antecipação de benefícios. A iniciativa, que atendeu 341 mil aposentados, rendeu à fintech cerca de R$ 252 milhões. Tudo dentro da legalidade formal? É o que a defesa sustenta. Mas a Polícia Federal apreendeu e-mails trocados com o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, hoje preso, que sugerem tratativas intensas antes da regulamentação do programa. A certeza que fica é a de que a norma já nascia com destinatário certo.
Como se não bastasse, surge no roteiro o apelidado “Careca do INSS”, Antônio Carlos Camilo Antunes. Relatórios do Coaf indicam movimentações suspeitas e pagamentos que teriam alcançado pessoas próximas ao poder. A investigação menciona repasses que teriam como destino Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inacio Lula da Silva. Anotações apreendidas pela Polícia Federal registram referências a “Fábio (filho Lula)” em contextos que vão de camarotes a envelopes que deveriam ser “descartados”. São indícios, não sentenças. Mas indícios que, somados, desenham um quadro indigesto para um sujeito que se disse a alma mais honesta do Brasil.
O governo desse sujeito, que se apressou em classificar o escândalo como herança maldita de gestões anteriores, enfrenta números difíceis de empurrar para debaixo do tapete: cerca de R$ 6 bilhões em descontos potencialmente irregulares entre 2019 e 2025, segundo auditorias em curso.
A Controladoria-Geral da União e a Polícia Federal identificaram entidades como a Conafer entre as beneficiadas por cobranças questionáveis, inclusive sobre benefícios de pessoas já falecidas. É a perversão máxima: cobrar de quem nem vivo está mais.
No Congresso Nacional, a base governista de Lula atua até com socos e pontapés para conter danos. Isso desmente a fala descarada de Lula sobre investigar o filho. Convocações são rejeitadas, requerimentos empacados. A oposição faz barulho, mas também mede cada passo conforme o calendário eleitoral se aproxima.
No meio dessa coreografia cínica, resta o aposentado — aquele que recebe um salário mínimo, muitas vezes sem saber por que o contracheque veio menor. Ele não frequenta camarotes, não troca e-mails estratégicos, não antecipa milhões. Ele apenas paga a conta.
Já a J&F, que sobreviveu à Lava Jato com ajuda do STF que enterrou a esperança de vermos corruptos punidos, acordos bilionários e delações seletivas, volta ao noticiário com seu braço financeiro. O lobista Danilo Trento, já conhecido da CPI da Covid, ressurge em nova trama, com consultorias abertas e fechadas no ritmo da oportunidade. E o Palácio do Planalto insiste no discurso da indignação protocolar: “Se houver envolvimento de qualquer familiar, será investigado”, declarou o presidente. A frase é correta. O problema é que, na prática, a tropa aliada trabalha para reduzir o alcance da apuração.
O que se vê é um enredo que mistura bilionários, operadores, familiares de poderosos e um sistema previdenciário que deveria proteger os mais vulneráveis.
Quando gigantes empresariais aparecem conectados a lobistas que operam em torno do INSS, não se trata apenas de política — é a anatomia de um Estado capturado por interesses que transitam com desenvoltura entre gabinetes e conselhos administrativos.
A pergunta que ecoa é simples e incômoda: quem defende o aposentado quando os tubarões disputam o cofre? Porque, ao final, não são os bilionários que sentem o desconto indevido no extrato. É o idoso que escolhe entre o remédio e a feira. E enquanto o poder joga xadrez, ele continua sendo o peão sacrificado no tabuleiro, graças a um STF que jamais poderia ter tirado Lula da cadeia, muito menos anulado a puniçãopor seus crimes.




