Greve de jornalistas, falência da antiga editora e envolvimento de empresário ligado ao Banco Master colocam em xeque o futuro da revista, que tentou se salvar virando digital.
A revista IstoÉ, um dos grandes nomes da imprensa semanal brasileira, está, de fato, “fora do ar” em 2026. Sem atualizações consistentes, com portais inativos e sem novas edições, a marca virou símbolo de um processo de desintegração que vai muito além da crise natural da mídia tradicional. O que se sabe hoje é que a paralisação resulta de uma combinação de atrasos salariais, greve dos jornalistas, falência da antiga editora e um bloqueio financeiro ligado ao empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, nome investigado por atuar como intermediário de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O que está acontecendo com a IstoÉ em 2026
Até meados de maio de 2026, os portais da IstoÉ e de outras marcas que hoje integram o grupo — como IstoÉ Dinheiro, Gente, IstoÉ Saúde, Planeta, Menu, Dinheiro Rural e Motor Show — quase não eram mais atualizados. A partir da meia‑noite de 14 de maio daquele ano, jornalistas da IstoÉ Publicações — braço que hoje controla a marca — entraram em greve, após assembleias realizadas nos dias 11 e 13, aprovadas pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP).
Desde o início da greve, a produção de reportagens e a atualização dos portais foram paralisadas. Ao menos até 16 de maio de 2026, o site da IstoÉ permanecia fora do ar ou sem novos conteúdos, o que deixa a marca praticamente invisível na internet, em vez de funcionar como um “veículo digital renovado”, conforme prometido nos anos anteriores.
Motivos da revista estar fora do ar
A greve não é apenas um conflito trabalhista isolado: ela é o desfecho de uma crise operacional e financeira que se arrasta há meses. Segundo relatos de jornalistas e de entidades sindicais, a empresa vinha atrasando pagamentos de salários, vale‑alimentação, vale‑transporte, férias e depósitos do FGTS. A direção da IstoÉ Publicações alegou que havia sido atingida por bloqueio de contas bancárias, o que teria impedido o pagamento regular das obrigações trabalhistas.
Além disso, áreas operacionais da empresa relataram falhas em sistemas internos, interrupções no provedor de e‑mails corporativos e instabilidade na plataforma de publicação de conteúdos. Essa combinação de problemas técnicos e financeiros, somada à paralisação dos profissionais, tornou praticamente impossível manter os portais funcionando com normalidade, o que explica por que a IstoÉ está “fora do ar” e não apenas em ritmo reduzido.
Salários, demissões e a situação dos jornalistas
A transição da IstoÉ para o digital, anunciada em 2025 com o fim das versões impressas de IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, nunca foi acompanhada de saúde financeira. Naquele período, a empresa passou a pagar salários de forma irregular, muitas vezes apenas metade do valor devido, sem aviso prévio, e deixou de cumprir obrigações trabalhistas básicas.
Em fevereiro de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ‑SP) decretou a falência da editora responsável pelas revistas IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, confirmando que a companhia não vinha pagando salários em dia e acumulava dívidas trabalhistas antigas. A greve de maio de 2026, portanto, é a consequência direta desse processo: jornalistas que já trabalhavam em condições precárias viram os problemas se agravarem e decidiram se mobilizar para pressionar por direitos básicos.
Ligação com Daniel Vorcaro e o Banco Master
Longe da redação, a crise se conecta a um contexto mais amplo de investigações financeiras. A empresa responsável pela IstoÉ, hoje sob a estrutura do Grupo Entre, é controlada por Antônio Carlos Freixo Júnior, um dos sócios do grupo. Freixo Júnior figura como investigado pela Polícia Federal por atuar como intermediário de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em operações financeiras de terceiros.
Em março de 2026, o Banco Central do Brasil determinou a liquidação de um conglomerado de pagamentos ligado a Freixo Júnior, o que resultou em decisão judicial mandando bloquear seus bens. Como as contas da IstoÉ Publicações estão associadas a esse grupo empresarial, o bloqueio atingiu diretamente a capacidade da editora de movimentar recursos, pagar salários e manter contratos operacionais.
É importante frisar que a figura central dessas investigações é Daniel Vorcaro, e não “Daniel Boccaro”, que não aparece como ator formalmente reconhecido nesse universo. A menção a “Boccaro” em alguns textos circulantes parece derivar de erros de grafia ou de autocorreção, e não de um vínculo documentado entre um empresário de nome “Boccaro” e o Banco Master ou a IstoÉ.
Veja capas icônicas de zistoé:



Cronologia essencial da crise
- 2025: a Editora Três anuncia o fim das versões impressas de IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, com a promessa de transição integral para o digital; ao mesmo tempo, intensificam‑se os atrasos salariais e a situação financeira da companhia se deteriora.
- Fevereiro de 2025: o TJ‑SP decreta a falência da editora das revistas IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, sob alegação de inadimplência recorrente com salários e outros compromissos.
- Março de 2026: o Banco Central do Brasil liquida um conglomerado de pagamentos ligado a Antônio Carlos Freixo Júnior, e o judiciário determina o bloqueio de bens do grupo, o que impacta diretamente as contas da IstoÉ Publicações.
- 11 e 13 de maio de 2026: jornalistas se reúnem em assembleias convocadas pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, que aprovam a greve por sucessivos atrasos em salários, benefícios e depósitos do FGTS.
- 14 de maio de 2026 (meia‑noite): entra em vigor a greve; os portais de IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, Gente, IstoÉ Saúde, Planeta, Menu, Dinheiro Rural e Motor Show param de receber atualizações regulares, ficando efetivamente fora do ar ou com atividade mínima.
- Meados de maio de 2026: até ao menos 16 de maio, a situação não foi normalizada; os portais permanecem encerrados ou praticamente sem novas postagens, cristalizando a saída de cena de uma das mais tradicionais marcas da imprensa brasileira.
Perspectivas para o futuro da marca
Diante desse cenário, não há, até o momento, anúncio claro de renegociação com fornecedores, recomposição de quadro de pessoal ou reestruturação financeira que garanta a retomada efetiva da marca. A combinação de falência formal, bloqueio de contas ligadas ao Banco Master, investigações envolvendo o controlador do grupo e a paralisação dos jornalistas torna improvável, ao menos no curto prazo, que a IstoÉ volte a operar como um veículo regular e confiável.
O que se observa é, sobretudo, o desfecho de uma trajetória de adaptação mal‑sucedida: uma revista de grande tradição que tentou se salvar no digital, mas se viu engolida por dívidas antigas, problemas de gestão e por um imbróglio financeiro que começou muito antes da pandemia e ganhou novos contornos com as investigações em torno do Banco Master e de Daniel Vorcaro.







