Governo Trump diz apoiar eleição no Brasil, mas quer sanções contra Moraes, PCC e CV

O Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou, em carta divulgada nesta sexta-feira (16), que apoia o direito dos brasileiros de escolher seus representantes em eleições “livres e justas”. O documento, porém, não respondeu ao pedido de parlamentares americanos para que Washington se comprometesse a reconhecer o resultado do pleito brasileiro.

A resposta foi assinada na quinta-feira (15) por Katherine Bowles, secretária-assistente do Escritório de Assuntos Legislativos do Departamento de Estado. No texto, o governo Trump reafirmou o apoio às sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e à inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista americana de organizações terroristas.

O que diz a carta

Segundo o Departamento de Estado, os Estados Unidos apoiam o direito do povo brasileiro de realizar eleições livres e justas e continuarão mantendo relações com o próximo governo eleito. A pasta afirmou que as medidas adotadas contra autoridades e grupos brasileiros seguiram critérios legais e regulatórios aplicáveis a cada caso.

A declaração responde a uma carta enviada em 24 de setembro por 31 deputados dos EUA ao secretário de Estado, Marco Rubio. Os parlamentares acusaram o governo Trump de tentar interferir na eleição brasileira por meio de medidas econômicas, políticas e diplomáticas e pediram um compromisso formal de respeitar o resultado das eleições de outubro.

Apesar de afirmar apoio ao processo eleitoral, o Departamento de Estado não esclareceu se reconhecerá o vencedor da disputa — ponto central do questionamento dos congressistas.

Sanções contra Moraes

Sobre o ministro Alexandre de Moraes, o governo americano defendeu a aplicação da Lei Magnitsky, anunciada em julho de 2025. Segundo o documento, a medida se baseou em documentos e evidências de graves violações dos direitos humanos.

O Departamento de Estado acusou Moraes de ter abusado de sua posição ao autorizar prisões preventivas injustificadas e comprometer a liberdade de expressão. A pasta também alegou que o ministro teria promovido uma iniciativa politicamente motivada para silenciar críticos, por meio de ordens supostamente secretas a plataformas digitais para banir contas de pessoas que publicavam manifestações protegidas pela liberdade de expressão.

O nome de Moraes, no entanto, foi retirado da lista de sancionados pela Lei Magnitsky em dezembro de 2025.

PCC e Comando Vermelho

Na carta, o governo Trump também reiterou a defesa da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, decisão anunciada em maio deste ano. Para Washington, as facções são altamente violentas, responsáveis por ataques contra autoridades e civis brasileiros e mantêm redes criminosas que alcançam os Estados Unidos.

O Departamento de Estado afirmou que as atividades dos dois grupos representam uma ameaça à segurança dos EUA e da região, e que a designação reforça o compromisso do governo americano de combater cartéis e organizações criminosas no continente.

Pressão do Congresso americano

A resposta do Departamento de Estado ocorre em meio a uma sequência de manifestações de parlamentares dos EUA preocupados com a relação entre Washington e Brasília durante a campanha eleitoral. Além da carta dos 31 deputados, três senadores democratas cobraram de Rubio, cinco dias depois, garantias de que o governo americano aceitará o resultado do pleito.

Em 6 de outubro, após o primeiro turno, outros 12 deputados enviaram nova carta acusando a Casa Branca de tentar interferir no resultado das eleições. Para o grupo, o Departamento de Estado promove uma escalada desnecessária que pode provocar uma ruptura nas relações entre os dois países.

Contexto da disputa

A eleição presidencial brasileira é tratada por analistas como um teste para a estratégia de Trump na América Latina. O governo americano impôs tarifas a produtos brasileiros e adotou sanções contra autoridades do país, medidas que alimentaram o temor, no governo brasileiro, de interferência externa no pleito.

Trump não declarou apoio aberto a nenhum candidato, mas afirmou estar acompanhando de perto a eleição no Brasil. A inclusão do PCC e do CV na lista de organizações terroristas ocorreu após visita do senador Flávio Bolsonaro a autoridades americanas, incluindo Rubio, e foi defendida publicamente por Bolsonaro.

A nova carta mantém uma ambiguidade central: Washington afirma apoiar a livre escolha dos eleitores brasileiros, mas evita assumir expressamente o compromisso de reconhecer o resultado — ao mesmo tempo em que reitera ações coercitivas contra uma autoridade do STF e contra organizações criminosas brasileiras.