Jornalistas mercadores acabam com credibilidade da Globo, Metrópoles, UOL…
Por Victório Dell Pyrro
O caso Daniel Vorcaro não é apenas uma tragédia financeira. É um escândalo de captura editorial. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-dono do Banco Master, indicam que um banqueiro investigado por fraudes estimadas em mais de R$ 50 bilhões e que quase quebrou o BRB teve acesso antecipado a reportagens, sugeriu cortes, pediu mudanças, articulou desmentidos e, em alguns casos, teria obtido exatamente o que queria antes da publicação.
Isso não é “relacionamento com fonte”. Não é “acesso”. É a submissão de uma função pública — informar — aos interesses privados de quem tinha tudo a perder com a verdade.
O que as mensagens revelam
O Grupo Globo demitiu, no último dia 15, Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, após o vazamento de mensagens indecentes trocadas entre ele e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, entre outubro de 2023 e julho de 2025. Em comunicado, a empresa afirmou que o conteúdo das conversas revelou uma “relação inadequada do executivo com um anunciante”. As mensagens, extraídas pela Polícia Federal, indicam encontros privados, negociações de patrocínio, conversas sobre alteração de reportagens do Globo e pedidos de Vorcaro relacionados à cobertura do banco. Parabéns Globo, mas e o Luciano Hulk? Impune?
Metastase na imprensa
Ao menos 14 reportagens do site Metrópoles, por exemplo, foram encaminhadas previamente a Vorcaro; 11 teriam sido alteradas após pedidos dele, e duas teriam sido publicadas a pedido do próprio banqueiro.
As mensagens atribuídas à CEO Lilian Tahan, mostram uma submissão incompatível com qualquer noção mínima de independência e seriedade jornalística. Uma fanfarrona que brincou com a credibilidade nela depositada por milhões de leitores iludidos.
Não se trata só de correções como em aabril de 2025, quanfo ao enviar um perfil sobre Vorcaro, ela teria escrito: “se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”.
É grave o teor de outras conversas, incluindo sobre rumores de que o BTG teria oferecido apenas R$ 1 por ativos do Master, e que Vorcaro teria determinado: “Mas tem que ser um jeito que nao pareça que nao tem interesse. So desmentir quem falou que tinha proposta de 1 real”. A resposta atribuída a Tahan foi: “Deixa comigo”. Só essa fala de Tahan demonstra total falta de vergonha na cara e compromisso com a verdade! Seu diploma de jornalismo deveria ser cassado!
O quadro é ainda mais grave porque Vorcaro não era um empresário comum. Ele era investigado pela Polícia Federal por um esquema de fraude com suposta criação de carteiras falsas de crédito.
Folha: a linha mais perigosa
O episódio envolvendo a Folha de S.Paulo é o mais explosivo. Vorcaro ofereceu R$ 1 milhão ao gestor de crise Guilherme Barros para “segurar” e “amenizar” uma reportagem sobre sua expansão e os questionamentos sobre a saúde financeira do Banco Master.
Nas mensagens reproduzidas, Vorcaro teria escrito, em 7 de agosto de 2024: “Gasta todos seus cartuchos aí, se voce conseguir segurar e nao sair nada vc tem um prêmio de R$ 1mm”. No dia seguinte, Barros teria informado: “A Folha vai segurar a matéria. O Sérgio me respondeu agora”, em referência ao diretor de redação Sérgio Dávila.
Depois houve um encontro entre Vorcaro e representantes da Folha na sede do jornal, em 12 de agosto de 2024. O encontro não teria sido registrado na coluna Painel, e o texto publicado teria incorporado trechos favoráveis ao Banco Master, incluindo a afirmação de que seus CDBs eram “os mais rentáveis do mercado”.
A Folha nega que a matéria tenha sido segurada ou amenizada. Segundo o jornal, o texto não estava pronto, o prazo foi solicitado para que Vorcaro fosse ouvido, a reportagem saiu em sua versão original e Dávila só teria tomado conhecimento do suposto pagamento depois de ler as mensagens divulgadas.
Essa defesa, porém, não encerra a questão. Se as mensagens são autênticas, o diretor de redação de um dos maiores jornais do país manteve canal direto com o alvo de uma reportagem sensível, recebeu pedidos de adiamento e participou de reunião não registrada — tudo enquanto o banqueiro articulava, com um intermediário, uma recompensa milionária para interferir na pauta.
A Folha precisa abrir uma auditoria independente, publicar integralmente o que apurar e afastar preventivamente os responsáveis pela negociação até que haja conclusão. Não se defende a credibilidade de um jornal com nota de esclarecimento; defende-se com transparência radical.
Vorcaro inverteu a lógica do jornalismo. O jornalista não deve perguntar ao investigado: “o que você quer que eu publique?”. Deve perguntar-se, antes, se o interesse público exige a publicação — e publicar.
Aqui, a responsabilidade não é apenas do golpista. É de todo o comando editorial dos veículos que permitiram que o dono de um banco investigado se tornasse, na prática, um editor interno. A direção dos grupos precisam afastar imediatamente os envolvidos, revisar todas as matérias sobre o Master publicadas no período e explicar claramente aos leitores quais textos foram contaminados.
Luciano Huck: proximidade que exige explicação
Luciano Huck é apresentador de oba, oba, mas já foi jornalista no sentido estrito, e é uma das maiores vozes da TV brasileira e mantém relação direta com a Globo, grupo que também investigava o Banco Master. As mensagens atribuídas a Vorcaro indicam encontros, jantares, convites pessoais, uso de aeronaves e negociações envolvendo o Will Bank e o “Domingão com Huck”.
Segundo reportagens baseadas nas mensagens, a parceria teria rendido R$ 83 milhões em mídia para a Globo e R$ 26 milhões para o próprio apresentador, por meio de contrato pessoal.
Huck teria ainda enviado mensagem a Vorcaro minutos antes da prisão, parabenizando-o pelo anúncio da suposta venda do Banco Master e desejando que ele superasse a crise.
Não há, até agora, prova de que Huck tenha participado de esquema criminoso. Mas há algo que precisa ser explicado publicamente: por que um apresentador de alcance nacional mantinha tanta proximidade com um banqueiro investigado, enquanto o grupo ao qual está vinculado produzia reportagens sobre esse mesmo banqueiro?
A resposta não pode ser silêncio. Huck precisa se manifestar com clareza sobre os encontros, os contratos, os presentes, os voos e a natureza exata de sua relação com Vorcaro. Se houve conflito de interesses, ele deve ser afastado de qualquer conteúdo jornalístico ou de interesse público até que tudo seja esclarecido.
Reinaldo Azevedo, um puxa saco de Lula e de Alexandre de Moraes, (ministro do STF que abocanhou ao menos R$ 80 milhoes do esquema criminoso e permanece no cargo impune), confirmou ter recebido patrocínio do Banco Master para o podcast Reconversa. O contrato, firmado em março de 2024, previa 12 parcelas mensais de R$ 100 mil — R$ 1,2 milhão no total —, mas, segundo o próprio “jornalista”, apenas sete parcelas foram pagas, somando R$ 700 mil. Azevedo afirmou que o acordo era exclusivamente publicitário. Ele negou ter escrito em defesa do Banco Master. Difícil de acreditar quando o sujeito distorce informações para defender Lula e Moraes descaradamente. Esse já nem tinha credibilidade mesmo.
A responsabilidade é coletiva
O escândalo não se resume a um nome. É um sistema.
As redações envolvidas precisam abrir investigação interna imediata e tornar públicos os resultados.
A regra deve ser simples: quem teve relação indevida com o alvo de uma investigação não pode continuar decidindo o que o público vai saber sobre ele.
Havia um banqueiro com poder econômico, um exército de assessores, um gestor de crise disposto a negociar favores, jornalistas dispostos a enviar rascunhos, diretores de redação dispostos a receber pedidos e uma rede de relacionamentos que transformava informação em moeda de troca. Muita moeda!
O resultado é uma imprensa que, em vez de vigiar o poder, passou a servir ao poder de um criminoso.
O que precisa acontecer agora
- Auditoria independente em todas as redações citadas nas mensagens.
- Publicação integral dos achados, sem cortes protetores.
- Afastamento preventivo de executivos e jornalistas diretamente mencionados nas conversas comprometedoras.
- Revisão de todas as matérias sobre o Banco Master publicadas no período.
- Explicação pública sobre contratos, publicidade, presentes, viagens e encontros entre Vorcaro e figuras da mídia.
- Fim da prática de enviar rascunhos, títulos ou abordagens indevidas a fontes antes da publicação.
A frase que resume tudo
Quando um comunicador pergunta ao investigado “alguma observação?” antes de publicar, ela não está fazendo jornalismo. Está pedindo licença.
Quando um diretor de redação ou reporter ou apresentador atendem a pedidos de adiamento de uma matéria sobre um banqueiro investigado, eles não estão exercendo critério editorial. Estão negociando a verdade.
A lista de veículos citados na rede de proximidade com Vorcaro inclui Brazil Journal, Metrópoles, PlatôBR, IstoÉ/IstoÉ Dinheiro, DCM, CartaCapital, Portal Léo Dias e Globo. Os nomes centrais são Geraldo Samor, Lilian Tahan, Flávio Carneiro, Felipe Mourão, Manuela Carta, Antônio Carlos Freixo Júnior, Frederic Kachar, Reinaldo Azevedo e Thiago Miranda. A existência das mensagens não significa, isoladamente, condenação judicial ou que realmente tenham envolvimento irregular, mas significa que há indícios documentais de contato, negociação ou interferência que exigem verificação caso a caso, especialmente quando a relação envolve patrocínio, dependência financeira ou decisão sobre publicação.
Claro, somos colegas de profissão, mas eu não sou o Edson Fachin para empurrar a sujeira para debaixo do tapete deixando marginais com canetas poderosas impunes e deixo aqui, clara minha posição sobre esse escândalo que agora envergonha nosso ofício de informar.




