Presente de meio milhão dado por Vorcaro a Lula vira novo escândalo de corrupção

Uísque escocês Macallan é da safra de 1945 e considerado uma raridade vendida por loja especializada em Londres

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, indicam que ele encomendou uma garrafa raríssima de uísque Macallan 1945, avaliada em cerca de R$ 500 mil, para presentear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O caso ganhou força política e jurídica depois que Lula declarou, em entrevista, que “se me deu uísque, já bebi”.

A revelação foi publicada pela revista Veja em 22 de outubro de 2026, com base em conversas apreendidas no celular de Vorcaro. Até então, era conhecido que o banqueiro teria presenteado o presidente com um uísque; o que era novo era o valor da bebida e os detalhes da operação de compra.

O que dizem as mensagens

Segundo a reportagem, em 29 de outubro de 2024 — dois dias após o aniversário de Lula — Vorcaro escreveu a um assistente: “Consegue uma garrafa macallan 1945 naquela loja londres” e acrescentou: “Preciso dar pro lula (…) É pra presente”. A safra de 1945 coincide com o ano de nascimento do presidente.

No dia seguinte, o funcionário informou ter localizado uma garrafa por “mais de 80 mil euros”, valor equivalente a cerca de R$ 503 mil na cotação da época. Vorcaro teria respondido apenas: “Tá ótimo”. As mensagens indicam ainda que a bebida viria de Dubai para o Brasil e chegaria em São Paulo em 31 de outubro de 2024, com entrega em um endereço do banqueiro.

O Macallan 1945 é um uísque escocês de coleção, extremamente raro. A escolha da safra reforça o caráter pessoal e simbólico do presente: não se tratava de uma garrafa comum, mas de um item de luxo associado ao ano em que Lula nasceu.

O agradecimento atribuído a Lula

O caso ganhou contorno mais grave em janeiro de 2025. Nas mensagens divulgadas, o advogado Walfrido Warde — que atuou para Vorcaro e era apontado como articulador de aproximações entre o banqueiro e o governo — teria informado ao empresário que havia se encontrado com Lula e que o presidente agradecera pelo presente.

“Ele agradeceu mais uma vez o whisky e mandou um abraço”, escreveu Warde, segundo as mensagens. Vorcaro teria respondido com um emoji de coração vermelho.

A frase é central na controvérsia porque sugere que o presente não apenas foi encomendado, mas teria chegado ao presidente e sido reconhecido por ele. Porém, as mensagens não provam, por si sós, a entrega física da garrafa a Lula nem a existência de qualquer contrapartida oficial em favor do Banco Master.

A versão de Lula

Questionado sobre o episódio no programa Canal Livre, da Band, em setembro de 2026, Lula não confirmou nem negou categoricamente ter recebido a bebida. “Eu não sei se deu, mas se deu, já bebi. Eu não fico contando quem me dá uísque. Eu ganho muita coisa, lembranças, sabe? Não sei se deu, mas, se deu, já bebi. Pode ficar certo”, declarou o presidente.

A declaração foi interpretada pela oposição como uma admissão de que Lula teria consumido o presente. Para o Planalto e para aliados do presidente, porém, a fala não equivale a uma confirmação de recebimento: Lula afirmou não se lembrar do episódio e colocou em dúvida a credibilidade do advogado Warde.

A Presidência da República nega que Lula tenha recebido qualquer presente de Vorcaro e nega também que o presidente tenha mandado recados ao banqueiro. O governo confirma, no entanto, que Lula se reuniu com Vorcaro uma única vez, em 4 de dezembro de 2024, em encontro fora da agenda oficial no Palácio do Planalto.

O contexto: Banco Master e interesses do banqueiro

O presente teria ocorrido em um momento em que Vorcaro buscava ampliar os negócios do Banco Master e estreitar relações com integrantes do governo federal, enquanto o banco enfrentava investigações.

A reunião entre Lula e Vorcaro, em dezembro de 2024, é apontada pela defesa de Flávio Bolsonaro como parte de uma sequência que precisa ser esclarecida: encomenda do uísque em outubro, encontro com o presidente em dezembro e agradecimento atribuído a Lula em janeiro de 2025.

Lula sustenta que, no encontro, assegurou apenas tratamento técnico à situação do Banco Master. A defesa do presidente nega qualquer favorecimento.

Reação política e judicial

A revelação do valor do uísque levou a defesa de Flávio Bolsonaro (PL) a apresentar uma petição complementar à notícia-crime já protocolada contra Lula no Supremo Tribunal Federal (STF). O documento, dirigido ao ministro André Mendonça, pede investigação por suspeitas de corrupção passiva e advocacia administrativa.

Os advogados argumentam que a identificação do preço — cerca de R$ 500 mil — e das circunstâncias da compra reforçam a necessidade de apurar se o presente representou uma vantagem indevida, diante dos interesses de Vorcaro junto ao governo federal.

É importante destacar: a petição é uma solicitação da defesa de Flávio Bolsonaro, e não uma decisão do STF nem uma conclusão sobre a ocorrência dos crimes apontados. Até o momento, não há condenação nem investigação formalmente instaurada com base especificamente nesse episódio.

O que está provado e o que é alegação

PontoSituação
Encomenda do uísque por VorcaroIndicada por mensagens extraídas pela PF e divulgadas pela Veja
Valor da garrafa (cerca de R$ 500 mil)Apontado nas mensagens, com cotação de mais de 80 mil euros
Entrega efetiva a LulaNão comprovada pelas mensagens; negada pelo Planalto
Agradecimento de Lula pelo presenteAtribuído a Warde em mensagem; Lula nega lembrar do episódio
Reunião Lula-VorcaroConfirmada pelo Planalto, em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial
Contrapartida ou favorecimento ao Banco MasterNão comprovado; alvo de pedido de investigação da defesa de Flávio Bolsonaro

Por que o caso explodiu

O escândalo ganhou proporção porque combina três elementos sensíveis: um presente de luxo de valor altíssimo, vindos de um empresário com interesses junto ao governo, e uma declaração do próprio presidente que, em vez de negar o recebimento, sugere que a bebida já foi consumida.

A frase “se me deu uísque, já bebi” virou o símbolo do caso, especialmente em um momento final de disputa eleitoral, com Flávio Bolsonaro usando o episódio para atacar Lula e o Planalto tentando conter os danos.

Flávio Bolsonaro pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a abertura de um inquérito contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por suspeitas de corrupção passiva e advocacia administrativa.