Desafio de sigilo que Lula fez se voltou contra ele; TSE ridicularizou

Por Victório Dell Pyrro

Lula lançou um desafio de campanha numa tentativa de golpe de marketing: propôs a abertura recíproca dos sigilos bancário, fiscal e telefônico com Flávio Bolsonaro.

Até aí tudo bem, mas o primeiro problema é que o presidente tratou como se pudesse virar uma exigência eleitoral como se fosse uma ordem judicial. O TSE, por meio do ministro André Mendonça, deixou claro que não fiscaliza “desafios” e que cada candidato pode, se quiser, abrir voluntariamente os próprios sigilos — sem precisar de aval da Justiça Eleitoral.

“Convém ressaltar o óbvio. Ao TSE, órgão de cúpula da Justiça Eleitoral, não cabe fiscalizar “desafios” lançados em debate, nem servir de instância garantidora de “acordos” de divulgação de dados e informações cujo cumprimento depende exclusivamente da vontade de quem os propõe”, escreveu o ministro André Mendonça.

Um desafio sem instrumento jurídico

A petição apresentada pela campanha de Lula pedia que Mendonça determinasse, “ainda hoje”, a requisição de dados ao Banco Central, às instituições financeiras, à Receita Federal e às operadoras de telefonia, com divulgação simultânea em plataforma pública. É uma formulação conveniente: transforma uma disputa entre campanhas em uma suposta obrigação estatal de vasculhar, reunir e expor dados privados de um adversário.

O ministro foi direto ao desmontar a tese. Segundo Mendonça, a divulgação voluntária dos dados é possível, mas não é competência do TSE definir ou executar o que os candidatos desejam tornar público. Extratos bancários estão disponíveis ao próprio titular pelo banco; a declaração de imposto de renda pode ser obtida na Receita; e registros telefônicos podem ser solicitados às operadoras. Ou seja: se Lula quer abrir seus sigilos, tem o caminho nas mãos. Não precisa esperar Flávio, nem o TSE, nem uma cerimônia de reciprocidade.

O tiro no pé da estratégia

Ao transformar a transparência em desafio público, Lula criou um padrão que agora se volta contra ele. Se a tese da campanha é que “quem não deve não recorta”, ela vale igualmente para o presidente: nada impede que ele publique, por conta própria, seus extratos, declarações e registros telefônicos. Enquanto isso não ocorrer, o discurso de abertura total soa menos como convicção e mais como armadilha para obrigar o adversário a assumir um ônus que o próprio desafiante não assumiu isoladamente.

Lula viu resurgirem figuras como Deltan Dallagnol que foi ao TSE à pedido de Flávio Bolsonaro ver se Lula havia aberto sigilo. Deltan aproveitou para desenterrar os crimes apurados pela Lava Jato. ” Lula é especialista em ocultar patrimônio e eu sou especialista em descobrir patrimônio escondido por Lula” e “… da última vez que investiguei, Lula foi preso”, disse Deltan.

Quem criou essa peça de “marketing” para Lula foi desastrado, no mínimo.

Há ainda uma assimetria política evidente. Lula insiste que o acordo original inclua a Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira ligada ao advogado Willer Tomaz, sob o argumento de que Flávio teria figurado como “usuário master” de conta da empresa até maio de 2025. Pode ser uma questão legítima de investigação e de debate público. Mas, ao amarrá-la à abertura dos sigilos pessoais, a campanha petista enfraqueceu o próprio argumento: passou a parecer que a transparência só interessa se vier acompanhada da exposição seletiva do adversário.

Transparência não é refém de acordo

A decisão de Mendonça tem um mérito institucional importante: impede que o TSE seja convertido em instrumento de guerra de desgaste entre candidatos. E é isso mesmo. Lula jogou para sua claque e deu um tiro no pé.

Rapidamente nas redes os governistas cobravam: “Abre o sigilo Flávio!” Flávio respondeu que abre e condicionou que Lula abrisse o sigilo de uma lista enorme de empresas e gente ligada ao presidente que até foram presas em escândalos passados de Lula.

A divulgação voluntária de informaçõesbpessoais, aliás, não substitui a verificação oficial por órgãos de controle, como o próprio ministro Mendonça destacou. Esse é o ponto central que a campanha de Lula parece ter confundido. Transparência séria não é um desafio de palco, nem uma troca de reféns documentais; é a disponibilização verificável de informações e a atuação independente dos órgãos competentes.

Se Lula acredita que não tem nada a esconder, a resposta é simples e está inteiramente sob seu controle: publicar seus sigilos, na íntegra e de forma auditável, sem condicioná-los ao comportamento de Flávio Bolsonaro. Enquanto isso não acontecer, o “desafio” permanecerá o que a decisão do TSE o revelou ser: uma jogada de marketing sem respaldo jurídico — e um tiro no pé de quem o lançou.

Nessa reta final de campanha, trazer o cadáver enterrado criminosamente pelo STF, com a canetada de ministros envolvidos com o maior escândalo financeiro do Brasil, o caso Master, como Dias Toffoli e Alexandre de Moraes foi até mais que um tiro no pé. Foi suicídio eleitoral.