Reeleição de Motta e Alcolumbre: continuidade do crime e a operação abafa do escândalo Master

Por Victório Dell Pyrro

As negociações para manter Hugo Motta na presidência da Câmara e Davi Alcolumbre no comando do Senado já estão em andamento — e, se prevalecerem, o Congresso que tomar posse em fevereiro de 2027 terá novamente no comando dois nomes diretamente alcançados pelas suspeitas do maior escândalo financeiro, moral e institucional do país, o Caso Banco Master.

Não se trata de uma simples continuidade das mesas diretivas: é a perpetuação de um arranjo de poder que convive, sem consequência imediata, com investigações que envolvem parlamentares e principalmente ministros do STF.

Lula sinalizou apoio à recondução de Motta e Alcolumbre, e o PT anunciou que votará nos dois em 1º de fevereiro de 2027. O cálculo é explícito: preservar o Centrão como interlocutor do governo e conter o avanço do PL, que elegeu a maior bancada da Câmara.

Motta parte com vantagem: já reúne apoio do Centrão, do PT e de legendas como MDB, PSD, Podemos, PDT e PSB. Alcolumbre tem caminho mais difícil no Senado, onde o PL ampliou sua bancada e cotiza Rogério Marinho como rival, mas a vitória de Lula fortalece sua articulação com o centro e com a base governista.

A PF identificou que Daniel Vorcaro pagou diárias de hotel em Lisboa para Hugo Motta e mapeou cerca de 100 ligações e 19 encontros entre os dois entre março de 2024 e outubro de 2025. As mensagens também registram tratativas sobre um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões do Banco Master a uma empresa ligada à cunhada do presidente da Câmara, usado na compra de um terreno em João Pessoa.

Vorcaro se definia, segundo os registros, como “o número 1” de Motta e o chamava de “irmão”. Motta nega qualquer ilícito, diz que o empréstimo foi firmado antes de as investigações contra o Master se tornarem públicas e sustenta que os diálogos não comprovam favorecimento.

No caso de Alcolumbre, a acusação é mais grave: uma proposta de colaboração premiada de Vorcaro teria citado o pagamento de US$ 30 milhões — cerca de R$ 155 milhões — ao presidente do Senado, em conta no exterior, como suposta contrapartida a apoio aos interesses do banco. Alcolumbre negou categoricamente ter recebido qualquer valor e anunciou medidas judiciais; a PF rejeitou a proposta de delação, e a acusação não foi comprovada.

Moraes e o contrato de R$ 131 milhões

O escândalo não se limita ao Legislativo. Metadados periciados pela PF atribuem a Alexandre de Moraes edições em um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. O contrato previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, e a PF apontou ao menos duas alterações feitas por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

Moraes acessou e editou o documento dentro do gabinetedo STF e ainda ajudou Vorcaro a quebrar o BRB, pressionanfo o Banco Central num rombo de 18 bilhões. Tudo isso é de dar nó no estômago de gente séria.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram ainda que o banqueiro pedia proteção e atenção do ministro pouco antes de ser preso.

Toffoli e o resort Tayayá

A conexão de Dias Toffoli com Vorcaro passa pelo resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no Paraná. A Maridt Participações — empresa da qual o ministro revelou ser sócio, junto com os irmãos José Carlos e José Eugênio ( laranjas)— vendeu, em setembro de 2021, parte de sua participação no empreendimento ao fundo Arleen por cerca de R$ 3,1 milhões. O Arleen, por sua vez, integrava a rede de fundos ligada ao Banco Master e tinha ligação com Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

O relatório da PF levanta a suspeita de que Toffoli pudesse ser o “beneficiário final” ou “proprietário de fato” do fundo Arleen, que teria recebido R$ 35 milhões de Vorcaro antes de transferir ativos para uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro indicam que ele se queixou de cobranças por aportes ao Tayayá e autorizou repasses que, somados, chegariam a R$ 35 milhões ao resort.

A vontinuidade com a reeleição de Motta e Alcolumbre adquire um significado indigesto. Em vez de afastar, suspender ou ao menos isolar temporariamente os investigados de decisões sensíveis, o sistema político tende a promovê-los à continuidade: Motta segue articulando a Câmara, Alcolumbre disputa o Senado, e Lula conta com ambos para continuar a quebradeira das famíliasendividadas em número recorde e os recordes de quebras de estatais.

O argumento oficial é a governabilidade. O argumento crítico é outro: quando suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução convivem com a manutenção dos investigados no comando das Casas, a investigação vira peça de barganha — e o arquivamento, a lentidão processual ou a decisão tomada pelos próprios pares no STF tornam-se desfechos politicamente convenientes. No caso de Moraes e Toffoli, cabe ao plenário do STF decidir se abre ou não investigação contra membros da própria Corte.

O fortalecimento de Lula

Para Lula, a dupla Motta-Alcolumbre é um ativo: garante interlocução com o Centrão, neutraliza parte da pressão do PL e facilita a aprovação de pautas no Congresso. A continuidade dos dois não é apenas uma vitória pessoal deles; é a consolidação de uma base de sustentação do quarto mandato.

O custo, porém, é institucional. Um Congresso presidido por nomes alcançados pelo Caso Master, e um STF que julga suspeitas envolvendo seus próprios ministros, transmitem a mensagem de que no Brasil a apuração pode existir — mas a consequência é opcional. Enquanto isso, Vorcaro tenta negociar colaborações rejeitadas pela PF, comandada por amigo de Lula que gosta de tomar uísque com Vorcaro e o país assiste à repetição de um roteiro conhecido: escândalos, impunidade e continuidade dos criminosos em nas mais altas esferas das instituições brasileiras.

O Congresso Nacional está diante de dois caminhos: Reafirmar sua falta de pudor e seu descaminho ou afastar ao menos os que já estão na mira da PF, do comando da nação. Você apostaria em qual vai ser o resultado disso?