Relatório final sobre queda de avião Voepass aponta falhas dos pilotos, da empresa e da Anac e diz que avião não poderia sequer ter decolado

O resultado da apuração do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira (FAB), sobre o acidente com avião ATR da Voepas há quase dois anos foi apresentado nesta quinta-feira (23).

O Cenipa concluiu que o avião da Voepass que caiu em Vinhedo, em 9 de agosto de 2024, não poderia ter decolado. A aeronave saiu com o limpador de para-brisa inoperante, havia previsão de chuva e o sistema de proteção contra gelo estava comprometido; durante o voo, a tripulação recebeu alertas sucessivos de formação de gelo nas asas, mas não reagiu de modo suficiente para evitar a perda de sustentação.

A investigação também apontou falhas da empresa e da Anac. A Voepass manteve uma rotina de tolerância a desvios operacionais e de manutenção, enquanto a agência reguladora não impôs fiscalização capaz de barrar a operação de um avião que já apresentava restrições relevantes.

O que os pilotos fizeram

Os pilotos continuaram o voo mesmo após a aeronave emitir repetidos alertas de acúmulo de gelo, conhecidos como electronic ice detector. Eles também ignoraram os alertas e conversavam sobre problemas familiares pouco antes da queda, ao invés de acionarem o degelo na hora certa. Os pilotos ligaram e desligaram o sistema de degelo mais de uma vez, sem estabilizar a situação, após o avião colapsar o voo e o Cenipa indica que a resposta à degradação de desempenho foi tardia e inconsistente.

O relatório ainda registra que a tripulação não tratou o quadro como emergência no momento em que os sinais se tornaram críticos. Em vez de executar de forma imediata os procedimentos previstos para gelo severo, os pilotos mantiveram a aeronave em condição de risco até a perda de controle e a queda trágica.

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Houve aviso de congelamento

Houve, sim, aviso de congelamento. O avião disparou o alerta de formação de gelo várias vezes, e o próprio relatório menciona que os pilotos comentaram problemas no sistema antigelo ainda no início do voo.
O Cenipa também identificou que a aeronave entrou em cenário meteorológico favorável a gelo severo e que esse acúmulo nas asas foi o fator técnico central para o estol e a queda.

Por que a decolagem foi irregular

O Cenipa afirma que a aeronave não reunia condições para decolar. Além da pane no limpador de para-brisa, que impedia a saída em cenário de chuva, o sistema Airframe De-Icing estava avariado, o que tornava a operação inadequada caso houvesse chance de formação de gelo.
A combinação entre falha técnica prévia, meteorologia adversa e decisão operacional equivocada criou a cadeia de eventos que terminou no acidente.

O peso da empresa e da fiscalização

A Voepass foi apontada por manter uma cultura de “normalização de desvios”, aceitando falhas recorrentes sem a correção necessária antes da operação.
Já a Anac foi criticada por falhas de supervisão regulatória, o que, na avaliação do Cenipa, contribuiu para que a aeronave chegasse ao voo em condição inadequada.