Áudios mostram tratativas para Mantega convencer Lula a apoiar Vorcaro no golpe ao BRB

Mensagens indicam que Daniel Vorcaro e ex-ministro organizaram uma articulação no governo envolvendo aprovação do Banco Central

Áudios e mensagens extraídos do celular de Daniel Vorcaro mostram que o banqueiro e seu então advogado, Walfrido Warde, trataram com o ex-ministro Guido Mantega para que ele defendesse os interesses do Banco Master junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O material indica que a estratégia foi montada enquanto o Banco Master enfrentava questionamentos do Banco Central e tentava viabilizar a venda da instituição ao Banco Regional de Brasília, o BRB. O BRB hoje, tenta se recuperar do golpe bilionário.

Mantega foi contratado por Vorcaro como consultor por R$ 14 milhões. Segundo as mensagens, o objetivo era apresentar ao governo a versão de que o Master estaria sendo tratado de forma injusta pelo Banco Central e de que as carteiras de crédito negociadas com o BRB tinham o valor informado pelo banco.

Advogado sugeriu buscar Mantega no exterior

Em 23 de julho de 2025, Warde informou a Vorcaro que Mantega estava em Londres. O advogado sugeriu que o banqueiro enviasse um avião para buscar o ex-ministro e levá-lo ao Brasil para uma conversa com Lula.

“Eu acho que seria o caso de você mandar teu avião lá buscar ele e trazer ele para encontrar o presidente” (Lula), afirmou Warde em um dos áudios.

Dois dias depois, o advogado voltou a insistir na articulação. Ele afirmou que seria necessário realizar uma videoconferência com Mantega para orientá-lo sobre os argumentos relacionados ao Banco Master antes da conversa com o presidente Lula.

Em seguida, Warde pediu a Vorcaro que falasse com ele e Mantega com urgência. Após uma ligação de 23 minutos, o advogado escreveu ao banqueiro: “Parabéns. Importante call. Vai dar certo”.

Vorcaro falava em “única chance”

As conversas indicam que Vorcaro via a interferência política como uma alternativa para tentar reverter a pressão sobre o banco.

Em 31 de julho de 2025, ele pediu que Warde conversasse diretamente com Lula e escreveu: “Você precisa conversar com o chefe. Única chance nossa”.

O banqueiro também afirmou que o presidente precisava ouvir diretamente sua versão sobre a situação do Master. Warde respondeu que tentaria resolver o problema e que iria procurar Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, então chefe de gabinete de Lula.

As mensagens mostram ainda que Vorcaro sugeriu acionar uma pessoa identificada apenas como “Alexandre”. Vorcaro sempre se referia a Alexandre de Moraes como Alexandre. Warde respondeu: “Sim. Vou pavimentar”.

O advogado também discutiu com Vorcaro a possibilidade de contestar a atuação de Renato Gomes, então diretor do Banco Central e contrário à venda do Master ao BRB. O banqueiro afirmou que o diretor estaria contrariando o apoio que ele dizia ter no Supremo Tribunal Federal, no Congresso e na Presidência da República.

Encontro com Lula ocorreu em dezembro de 2024

Lula se reuniu com Vorcaro em 4 de dezembro de 2024, em encontro justamente articulado por Guido Mantega. A reunião ocorreu fora da agenda oficial do presidente apesar de ter sodo na sala de Lulabno Palácio do Planalto, mas foi revelado pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo .

Participaram do encontro Mantega, o então ministro da Casa Civil, Rui Costa, e Gabriel Galípolo, à época diretor de Política Monetária do Banco Central e atual presidente da instituição.

Em entrevista ao UOL, Lula afirmou que Vorcaro relatou ser vítima de perseguição. O presidente disse ter respondido que não haveria posição política favorável ou contrária ao Banco Master e que a situação seria analisada tecnicamente pelo Banco Central. O Banco Central não exerceu a fiscalização e o BRB comprou bilhões podres do Master.

Segundo Lula, depois da reunião ele conversou com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, com Galípolo e com o procurador-geral da República para entender a situação do banco.

O Palácio do Planalto afirma que Lula se encontrou apenas uma vez com Vorcaro e nega ter conhecimento da articulação descrita nas mensagens. Apesar da responsabilidade regulatória do Banco Central, mesmo tendo identificado sinais de fraude, demorou a agir e falhou na obrigação de impedir novas operações que prejudicarm gravemente o BRB.

O material divulgado hoje se soma a mensagens reveladas anteriormente, nas quais Warde relatava a Vorcaro contatos com integrantes do governo.

Em abril de 2024, o advogado disse que Marcola solicitara um e-mail com os assuntos que Vorcaro gostaria de tratar com Lula. A mensagem serviria para formalizar um pedido de audiência.

Em outra conversa, Warde escreveu ao banqueiro: “Estive com o presidente Lula longamente ontem. Você vai gostar”. Não há, porém, registro que confirme uma reunião com Lula na data mencionada. Se houve, está fora dos registros oficiais, assim como o encontro entre Lula e Vorcaro.

Também foram divulgadas mensagens em que o advogado afirmou ter um recado do “MJ e do presidente”. A sigla foi interpretada como uma possível referência ao Ministério da Justiça, então comandado por Ricardo Lewandowski. O ex-ministro negou ter tratado com Warde ou Lula sobre Vorcaro. Lewandowski foi o primeiro a cair após a explosão do caso e 15 dias antes de o contrato entre o escritório ligado a Ricardo Lewandowski e o Banco Master ser revelado pela jornalista Andreza Matais, em reportagem publicada pelo portal Metrópoles em 26 de janeiro de 2026.

Em janeiro de 2025, Warde ainda escreveu que Lula teria agradecido novamente um uísque e enviado um abraço a Vorcaro. Lula negou lembrar e disse que se ganhou já teria bebido o uísque.

Banco Central demorou na fiscalização e só rejeitou operação depois do escândalo explodir nos jornais

O Banco Central rejeitou a venda do Banco Master ao BRB em setembro de 2025, depois do escândalovir à tona. O BC demorou a fiscalizar e BRB comprou bilhões em títulos falsos e podres do Master

Dois meses depois, em novembro, a autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial do Master. Vorcaro acabou preso pela Polícia Federal sob suspeita de fraude envolvendo a instituição e as carteiras de crédito negociadas.

A investigação apura se o banco ocultou problemas financeiros e utilizou operações de crédito para disfarçar a situação patrimonial. Vorcaro também teria tentado deixar o país quando foi detido.

Reações dos envolvidos

O Planalto declarou que Lula não tinha conhecimento da suposta articulação de Warde, não recebeu presente de Vorcaro e não enviou recados ao banqueiro.

Marcola afirmou que nunca procurou Warde ou qualquer representante do Banco Master por iniciativa própria. Segundo ele, quando foi procurado pelo advogado, apenas pediu que o pedido de audiência fosse formalizado por e-mail, como ocorria com outras solicitações.

Hugo Motta afirmou que seus contatos com empresários e representantes da sociedade fazem parte da atividade parlamentar e que suas interlocuções foram pautadas pela institucionalidade.

Alexandre de Moraes não se manifestou sobre a menção ao nome “Alexandre”. Warde também não comentou o conteúdo dos áudios. A defesa de Vorcaro não apresentou esclarecimentos públicos sobre as mensagens.

Os diálogos não comprovam, por si só, que Lula tenha atuado para favorecer o Banco Master ou interferido em decisões do Banco Central. Eles mostram, contudo, a insistência de Vorcaro e Warde em mobilizar Mantega, integrantes do governo e autoridades de diferentes instituições para tentar abrir canais de pressão em defesa do banco.

A apuração sobre eventual tráfico de influência, favorecimento ou irregularidade nas relações entre o banqueiro e agentes públicos depende da análise completa dos áudios, mensagens, registros de reuniões e demais provas reunidas pela Polícia Federal.