Por Victório Dell Pyrro
O Banco Master não comprava apenas decisões. E não se trata só de um banco. Se trata de crime organizado. Vorcaro era o cabeça, mas haviam outros líderes nos poderes que estavam próximos, bem próximos do criminoso antes dele ser enjaulado na Papuda. Além do presidente do Congresso Nacional Davi Alcolumbre, o Próprio Lula o recebeu até no Palácio do Planalto.
Vorcaro comprava o caráter, fazia dançar Alcolumre e ourtros poderosos com a facilidade de quem comprava covardes que atuaram contra o povo rasgando a Constituição. São covardes.
O pior, comprava esses sujeitos engravatados e togados com jantares, uísque, charutos, hospedagem, jatinho, contratos bilionários e, segundo mensagens extraídas pela Polícia Federal, até festas com prostitutas e bacanais.
É tanta podridão que talvez seja melhor mesmo que as informações tenham chegado gota a gota.
Agora é a vez das prostiutas do poder seduzirem Nunes Marques. Quando o esquema ruiu, não sobrou apenas um rombo bilionário no FGC, na Rio previdência, no BRB e nos rastro de quebradeira : sobrou a imagem de uma Corte degradada, cortejada e possuída por um golpista violento como qualquer cafetão de esquina.
Mensagebs encontradas no celular de Vorcaro relatam a presença de um ministro acompanhado de cinco mulheres em uma festa realizada no triplex do empresário, em São Paulo, em 28 de fevereiro de 2025. Dias depois, uma mulher que intermediou a participação de convidadas no evento cobrou R$ 10 mil e afirmou que uma delas havia ficado com alguém identificado apenas como “Kassio
Nunes Marques: a festa, o filho e o contrato de R$ 427 milhões
O nome de Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, virou o centro da tempestade depois que mensagens do celular de Daniel Vorcaro, obtidas pela PF, passaram a circular na imprensa. Em 28 de fevereiro de 2025, durante uma festa no tríplex do banqueiro em São Paulo, um funcionário relatou ter cedido um quarto para um “ministro com cinco meninas”. A organização incluiu chef de cozinha, convocação de mulheres e instrução para recolher os celulares das convidadas. O relatório de despesas registrou R$ 62,3 mil.
A revista piauí apontou que Nunes Marques e seu filho, Kevin Nunes Marques, estiveram entre os frequentadores de encontros no tríplex de Vorcaro, no Itaim Bibi. A assessoria do ministro negou que ele tenha trocado mensagens com Vorcaro, pedido qualquer coisa ao empresário ou autorizado terceiros a falar em seu nome.
Mas não é só a festa. Deputados do PT apresentaram ao STF uma notícia de fato contra Nunes Marques, reunindo sete núcleos de fatos que apontam possíveis vantagens oferecidas ao ministro enquanto ele participava de julgamentos de interesse econômico do banco. Entre eles: mensagens que mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil associados ao filho do ministro, Kevin de Carvalho Marques; hospedagem em mansão no Rio durante o Carnaval de 2025; e viagem de avião particular de Brasília a Maceió, em novembro daquele ano, custeada por advogada que atua para o Master.
O escândalo ganha contorno mais grave com a revelação de que um escritório de advocacia ao qual Vorcaro e seus executivos se referiam como a “Turma do KN” — em referência às iniciais de Nunes Marques — fechou com o Master um contrato para a liberação de precatórios que poderia render até R$ 427 milhões em honorários. O Metrópoles e a Folha de S. Paulo também noticiaram que Vorcaro teria pago R$ 10 mil para que uma garota de programa dormisse com o ministro.
Nunes Marques nega tudo. Mas a pergunta que não cala é: por que o nome de um ministro do STF aparece em mensagens de um banqueiro investigado por fraude bilionária, em contexto de festas, pagamentos e contratos milionários? A resposta não pode ser “negativa da assessoria”. Tem que ser apuração pública, com quebra de sigilo, auditoria e afastamento preventivo, se necessário. O que não foi feito com Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, nem Gilmar Mendes.
Macallan, charutos e o diretor da PF em Londres
Em 25 de abril de 2024, no George Club, em Mayfair, Londres, Daniel Vorcaro pagou uma degustação de whisky Macallan que custou US$ 640.831,88 — cerca de R$ 3,3 milhões na cotação da época. O evento incluiu charutos oferecidos gratuitamente, serviços gastronômicos e brindes.
Entre os presentes estavam o ministro Alexandre de Moraes, o então ministro Dias Toffoli, o procurador-geral da República Paulo Gonet, o diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, o ministro do STJ Benedito Gonçalves, o presidente da Câmara Hugo Motta e o então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. O Banco Master foi patrocinador do 1º Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, que reuniu as autoridades em Londres.
Alexandre de Moraes confirmou a presença em sessão reservada do STF, dizendo: “Tomamos Macallan juntos”. Andrei Rodrigues também participou. O detalhe é explosivo: o homem que comanda a polícia federal que investiga o Master bebeu uísque e fumou charuto pago pelo investigado.
Esses fóruns jurídicos são uma farra para esses criminosos disfarçados de gente honesta discutindo legislação. Gilmar Mendes é o rei dos Foruns internacionais. Proprietário de um Instituto desses, nada na lama com a ajuda do cunhado. Ex-cunhado, agora.
Uma representação enviada à Comissão de Ética Pública da Presidência da República aponta que o Banco Master custeou hospedagem, alimentação e locomoção de Andrei Rodrigues no evento, além da confraternização privada de alto custo. O documento classifica isso como “concessão de vantagens materiais concretas” a participantes, em contexto de investigação conduzida pela própria PF.
Isso não prova crime. Mas destrói a aparência de imparcialidade. Uma instituição que investiga fraude bilionária não pode ter seu diretor-geral circulando no circuito privado do principal investigado sem explicação pública, auditoria e afastamento preventivo, se necessário.
Toffoli: a saída que não foi suspeição
Dias Toffoli não foi declarado suspeito. Foi convencido a sair.
Em 12 de fevereiro de 2026, depois que a PF entregou a Fachin um relatório de cerca de 200 páginas com dados do celular de Vorcaro, os ministros se reuniram a portas fechadas por quase três horas. O material registrava mais de dez encontros entre Vorcaro e Toffoli, além de mensagens sobre pagamentos, a empresa Maridt, da família do ministro, e o resort Tayayá, no Paraná.
O resultado foi uma nota conjunta dos dez ministros dizendo que “não é caso de cabimento para a arguição de suspeição”, que reconhecem “a plena validade dos atos praticados” por Toffoli e que expressam “apoio pessoal” a ele. Ou seja: a Corte disse, em linguagem jurídica, que não via problema — e, na mesma nota, informou que Toffoli deixaria a relatoria por “altos interesses institucionais”.
A relatoria passou para André Mendonça, por sorteio. A suspeição formal foi arquivada por Fachin em 22 de fevereiro. Toffoli, mais tarde, se declarou suspeito apenas em um processo específico — o que pedia a instalação de CPI do Master — por “foro íntimo”, sem detalhar as razões.
O Tayayá não foi descoberto pela PF. Foi a imprensa que revelou que fundos ligados a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, compraram participação dos irmãos de Toffoli no resort, no interior do Paraná. A fatia valia R$ 6,6 milhões na época. Zettel confirmou ao Estadão que foi cotista do fundo e disse ter deixado o investimento em 2022.
Toffoli reconheceu que é sócio da Maridt, empresa que vendeu participação no resort para um fundo do cunhado do banqueiro. Foi isso, e não uma decisão espontânea de “foro íntimo”, que o empurrou para fora da relatoria.
O contrato de R$ 50 milhões: jato, helicóptero e a esposa de Moraes
A PF identificou um segundo contrato, de 12 de maio de 2025, entre a Viking Participações, holding ligada a Vorcaro, e o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O acordo previa até R$ 50 milhões em honorários por três anos de serviços jurídicos.
O detalhe é obsceno: R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jato Embraer Legacy 650 e de um helicóptero Airbus EC 155 B1. O escritório receberia 33,33% da empresa ligada ao avião e 20% da ligada ao helicóptero; os outros R$ 10 milhões viriam como reembolso de despesas de voo. “Estamos adorando os jatinhos” escreveu a honesta mulher de Moraes ao cliente “vip”.
O escritório nega que o contrato tenha sido assinado e diz que a proposta não foi aceita. Mas a PF encontrou minutas, mensagens e uma estrutura de negociação iniciada em maio de 2025. E o primeiro contrato, com o Banco Master, existiu: previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, cerca de R$ 108 milhões em três anos, somando até R$ 158 milhões com o segundo acordo.
Alexandre de Moraes também aparece em relatório da PF como revisor e editor do contrato de R$ 131 milhões firmado por sua esposa com o Master. O ministro nega irregularidade; o escritório diz que nunca atuou para Vorcaro no STF. Mesmo assim, um ministro da Corte não pode tratar como assunto privado um contrato bilionário entre o banco de um investigado e o escritório de sua esposa, com aeronaves de luxo no meio.
“A Turma”, o Sicário e a vigilância do Estado
A PF aponta que Vorcaro mantinha o grupo “A Turma”, voltado à obtenção ilegal de informações sigilosas e à intimidação de críticos do Master. Entre os operadores estava Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, chamado pelo banqueiro de “Sicário”. A PF concluiu que ele tirou a própria vida após ser preso.
Mensagens obtidas pela investigação indicam que Vorcaro teve acesso antecipado a buscas internas do Ministério Público sobre a negociação Master-BRB e ao teor de uma notícia de fato no MPF-DF. Isso não é “articulação política”: é vigilância privada sobre órgãos públicos, com suspeita de vazamento de sigilo.
O assédio ao Supremo
O Master patrocinou eventos com ministros do STF em Nova York, Roma, Londres, Paris e Cambridge, além da Brazil Conference de 2024, em Harvard e MIT. Bancou a palestra de Tony Blair em Londres e custeou jantares de luxo com Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandowski.
Gilmar Mendes também aparece em reportagens com pagamentos de R$ 33 milhões a uma pessoa apresentada por executivos do banco como “sócia” do ministro e “canal direto com o STF”. O material comprova contatos e pagamentos a pessoas apresentadas como próximas a ele, mas não demonstra que o ministro tenha recebido recursos ou votado a favor do Master. Gilmar nega benefícios.
Lewandowski teria prestado consultoria ao Master antes de assumir o Ministério da Justiça. Barroso participou do jantar em Nova York. Nenhum desses fatos, isoladamente, é crime. Mas, somados, formam um padrão: um banqueiro investigado comprava presença, acesso e legitimidade junto aos mais altos cargos do Judiciário.
O que falta apurar
- Se o contrato de R$ 50 milhões com cotas de jato e helicóptero chegou a produzir efeitos patrimoniais, mesmo sem assinatura formal.
- A trilha completa do Tayayá: quem aportou, quem recebeu, quando e se houve qualquer ligação com o Master.
- A participação de Andrei Rodrigues em eventos de Vorcaro e se houve qualquer contato funcional além do social.
- As 52 mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, incluindo o dia da prisão do banqueiro.
- Todos os patrocínios, viagens, hospedagens e pagamentos do Master ligados a ministros, familiares, assessores ou instituições associadas a eles.
- A veracidade das mensagens que citam Nunes Marques em festa com garotas de programa, os pagamentos de R$ 500 mil ao filho e o contrato da “Turma do KN” de até R$ 427 milhões.
O STF não pode continuar tratando o caso Master como incômodo reputacional. Se a PF está correta, o país diante de si tem uma fraude bilionária que tentou capturar o BRB, vigiar o Ministério Público, intimidar críticos e comprar presença simbólica junto à Corte.
A frase “até tu, Marques?” não é acusação criminal. É alerta: quando um banqueiro criminoso consegue negociar jatos com a família de um ministro, patrocinar eventos com outros, ter seu cunhado comprando participação de familiares de um terceiro, pagar Macallan e charutos para o diretor da PF que investiga o caso e ainda promover festas com garotas de programa para mimistros do STF, a suspeita deixa de ser exagero e passa a ser dever institucional.
O Supremo precisa abrir os livros, separar patrimônio pessoal de relações institucionais e permitir que a PF conclua o inquérito-mãe sem interferência. Caso contrário, a frase “até tu, Marques?” vai continuar ecoando — não como acusação, mas como sintoma de descrença total no STF.




