PF tenta driblar ministro do STF no caso Lulinha e expõe esquizofrenia da corporação sob comando do governo que investiga
Por Victório Dell Pyrro
A Polícia Federal tentou contornar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça nas investigações que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A informação, apurada pelo Estadão, não é apenas um detalhe de bastidor: é a radiografia de uma instituição que, sob o comando de um governo que se diz “investigado”, tenta fazer acrobacias processuais para escolher relator, enquanto sua cúpula finge que combate esquemas de corrupção diretamente ligados ao governo Lula.
A manobra: tentava fugir de Mendonça e caiu no ridículo
Para entender, a PF protocolou no STF um pedido para abrir uma nova frente de investigação contra Lulinha, com foco em suspeitas de tráfico de influência no Palácio do Planalto e no Ministério da Saúde, em tratativas sobre negócios envolvendo cannabis medicinal do Careca do INSS, descoberto nas investigaçõesdo INSS que já estão com André Mendonça.
O ponto sensível: a petição não foi enviada diretamente a Mendonça, relator do inquérito principal sobre o INSS, mas sim à Presidência do STF, no período de recesso e comandado agora por Alexandre de Moraes, aquele mesmo que foi chamado para um cafezinho particular por Lula vazado pelos microfones, para distribuição geral por sorteio.
Nos bastidores da Corte, a movimentação provocou estranhamento. A interpretação predominante é que a PF tentou “driblar” Mendonça, buscando que o novo inquérito caísse nas mãos de outro ministro, evitando assim a prevenção (vinculação automática) ao relator que já acompanha de perto as apurações sobre o filho do presidente.
A estratégia, no entanto, não funcionou como planejado. Por sorte da Nação, o sorteio, com o novo pedido acabou distribuído justamente a André Mendonça, que, como relator, autorizou a abertura do inquérito. Ou seja: a tentativa de evitar o ministro terminou, por ironia, reforçando sua atuação no caso.
O inquérito agora tramita em sigilo e apura se Lulinha teria vendido acesso ao governo federal em troca de pagamentos, com atividades sob suspeita tanto no Ministério da Saúde quanto no Planalto. A PF cita, em documentos, contatos entre investigados e servidores do governo, incluindo funcionários do gabinete presidencial.
O contexto: Lulinha, o “Careca do INSS” e o tráfico de influência
A nova investigação é um desdobramento direto do inquérito sobre as fraudes no INSS, que tem como principal alvo Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso desde setembro de 2025. Nas apurações desse caso, a PF descobriu ligações de Lulinha com o Careca Carlos Antunes e passou a apurar também uma suspeita de tráfico de influência do filho do presidente a favor de negócios de canabidiol (cannabis medicinal).
A PF, antes de ter investigadores afastados das investigações por sua cúpula, já havia apontado, em informes ao STF, que Lulinha pode ter atuado como “sócio oculto” de Antunes, com citações ao empresário em materiais apreendidos e em depoimentos.
Em fevereiro, Mendonça autorizou a quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha, antes mesmo da CPMI do INSS fazer o mesmo em sessão marcada por confusão e empurra-empurra entre parlamentares. Os parlamentares da base de Lula chegaram a agredir o presidente da CPI, senador Carlos Viana para impedir as investigações sobre Lulinha.
A defesa de Lulinha reage e fala em “pesca probatória”
A defesa de Lulinha classificou a abertura do novo inquérito como “pesca probatória” e “tentativa de melhor de três”, alegando falta de fundamentação e fins políticos. O advogado Marco Aurélio de Carvalho disse ter recebido a notícia “com perplexidade” e sustentou que “não acharam nada do Fábio no bojo das investigações do INSS, como não vão achar em relação a esses fatos”.
Tensão entre PF e Mendonça
O episódio se soma a outros atritos recentes entre a PF e Mendonça. Em maio, o ministro chegou a pedir que a investigação avaliasse a necessidade de ouvir Lulinha, enquanto o Congresso se movimentava para entender mudanças feitas pela PF no rumo das apurações. A tentativa de desviar o caso para outro relator, ainda que frustrada pelo sorteio, é lida como mais um capítulo dessa disputa de bastidores, em que a corporação busca margem de ação e o ministro tenta manter o controle do inquérito que pode definir os próximos passos contra o filho do presidente.
A PF como braço operacional de um governo que se investiga
Aqui cabe a pergunta que não quer calar: como a Polícia Federal, sob comando de um diretor-geral nomeado por Lula, pode tentar “escolher” relator no STF para investigar o filho do próprio presidente? A manobra de enviar a petição à Presidência da Corte, em vez de ao relator natural do caso, não é apenas um erro técnico processual: é um sintoma de uma instituição que tenta navegar entre dois papéis incompatíveis — o de polícia investigativa e o de braço operacional de um governo que, ao mesmo tempo, comanda a corporação e é alvo de suas apurações. O problema é que dentro da PF ainda resistem investigadores que querem elucidar os fatos, apesar da força contrária de sua cúpula.
A PF, nessa cena, não aparece como guardiã da lei, mas como ator político tentando fazer “ginástica processual” para evitar que um ministro já acompanhando o caso (Mendonça) concentre ainda mais poder sobre as investigações que tocam no coração do governo. O ridículo do sorteio, que devolve o caso justamente a Mendonça, só torna a farsa mais evidente: a tentativa de driblar o relator termina reforçando sua centralidade.
Próximos passos
Com o inquérito aberto e em sigilo, a PF deve agora aprofundar a apuração sobre as autorizações para comercialização de cannabis medicinal em programas do Ministério da Saúde, cruzando dados de mensagens, e-mails, registros de reuniões e eventuais pagamentos. O caso, agora sob a batuta de Mendonça, promete seguir no centro da tensão política entre o governo, a PF e o STF.
O que fica, porém, é a imagem de uma Polícia Federal dividida que, sob o comando de Lula, tenta fazer acrobacias para escolher quem vai julgar o filho do presidente — e, no processo, expõe a esquizofrenia de uma instituição que investiga por obrigação o próprio governo que a dirige.




